Dezembro 20 2012
Se há coisas recorrentes na nossa vida são os momentos em que nos encontramos em becos sem saída. Quando o caminho seguido nos leva a um beco sem saída, a um muro alto demais para ser escalado, forte demais para ser derrubado. Pode acontecer, e acontece, por muitos motivos diferentes. É uma profissão que deixou de satisfazer, é um emprego que foi extinto, um ente querido que desaparece ou uma relação que se esgota. Os exemplos são infinitos e o que acaba invariavelmente por ficar na nossa história pessoal é mais a forma como reagimos às situações do que as próprias causas de tudo ter ocorrido. É nesses momentos que somos obrigados a reavaliar rumos, a redefinir prioridades, em última análise mesmo a reinventarmo-nos. Poucas coisas definem tão bem a nossa personalidade como a forma como reagimos à destruição dos nossos sonhos. Quando os campos que plantámos são reduzidos a cinzas, quando no mais íntimo dos nossos poros só obtemos silêncio às nossas súplicas por companhia há muito que podemos fazer, muito do qual errado. Podemos insistir no tal rumo que nos levou à prisão da falta de caminho, podemos baixar os braços e ceder ao canto de sereia de ter pena de nós próprios, podemos ainda construir um muro à nossa volta para nos proteger de futuros falhanços, o que para mim é a atitude mais destrutiva de todas porque os muros que protegem com o tempo passam a isolar e a evolução natural de um castelo é tornar-se numa prisão. Mas também podemos reagir. É sempre possível resgatar do fundo das entranhas aquela nossa necessidade e arrogância juvenil que em tempos nos fazia enfrentar o desconhecido com um brilho nos olhos. Sim, porque o tempo, como excelente pintor que é consegue sempre desenhar um novo rosto em cujo sorriso apetece viver até morrer. Por vezes é tudo o que é preciso para fazer reviver a esperança, sim porque a esperança é a bomba nuclear dos sonhadores e idealistas. E além da esperança há ainda o tempo. O tempo que como grande escultor que é consegue sempre esculpir um corpo que nos faz perder de febre em noites de testosterona quando o desejo nos leva de volta aos tempos em que éramos apenas animais. Mas além do desejo há sempre o tempo. Esse tempo que como maestro tem a mestria rara de compor uma voz ao som da qual, mais do que esperança e desejo, há redenção. É quando descobrimos que existem pessoas que nos animam em cada palavra, que nos ressuscitam em cada conversa. Sim, há pessoas que nos fazem viver e reviver e recomeçar e voltar a sonhar. E é assim que becos se transformam em estradas, estradas em avenidas e passo a passo a falta de rumo torna-se numa caminhada gloriosa rumo a tudo, a nada, ao desconhecido, ao futuro. E há também o tempo. O tempo que como bom vidente usa olhares para nos devolver a luz que, em tempos, sentimos que tínhamos perdido. Sim, o tempo arranja sempre forma de nos cruzarmos com alguém que tem a capacidade de devolver luz, som, cor, forma, conteúdo e significado à nossa vida. Raramente essas pessoas sabem que o fazem, muitas vezes não o quiseram fazer, outras vezes recusam mesmo esse papel quando descobrem que o têm. Mas nós não somos responsáveis por isso, nós somos apenas responsáveis pela forma como decidimos agir quando o tempo nos oferece esse recomeço. Somos os únicos responsáveis por escolher lutar ou desistir, ter medo ou esperança, isolarmo-nos ou abrirmo-nos, olhar o futuro ou recordar o passado. Pode existir alguma garantia que o futuro será indolor e risonho? Não, não pode. Tudo o que temos direito é um misto de esperança, confiança e força de vontade, o que pode parecer pouco mas sempre foi a receita para mudar o mundo. O que fazer então? No que depender de mim, passo a passo entrar decididamente e com confiança nesse quarto escuro que é o futuro. E sem olhar para trás.
Venha 2013.
publicado por Nicolae Santos às 23:11

Dezembro 01 2012
11h30 - Toca o telefone. Acordo com a voz da Gabriela. Quinze minutos depois foi-se o conforto do quarto e chegou o frio sádico desta terra pela cara adentro para me lembrar que a minha arrogância de Algarvio habituado a temperaturas decentes corre mal nesta terra. Café rápido e vinte minutos de conversa dada a ausência de contacto deste uma noite idílica em Ponte de Lima há três meses atrás. Deu para matar saudades mas soube a pouco, como sabe sempre a pouco. Hope we'll see each other in better days.
12h00 - Sentado no parque da ponte a tentar ler o jornal. No banco à minha frente um casal de namorados. Ela extraordinariamente bonita, sorriso tímido, olhar inseguro, voz delicada espalhada ao vento à velocidade da vibração das suas cordas vocais que a genética teceu com carinho em vez de as ter martelado numa bigorna. Ele, cabelo desalinhado, magro demais para ser aceite em cima de uma balança e com um olhar desinteressado como se estivesse a cumprir pena por algum crime passado. Ele ama-a mas não sabe, ela está a ficar farta dele e ainda não o descobriu. O alheamento que ele demonstra enquanto ela fala e lhe acaricia o cabelo poderia até ser a sua imagem de marca, o pior é que a sua postura de macho alfa é completamente traída pela forma como lhe sorri quando ela está distraída. Nenhum homem sorri para uma mulher quando ela não está a ver sem a amar. Quanto à rapariga, bem, ela fala, e fala, e continua a falar. Parece que está a tentar esgotar todos os assuntos do catálogo e todas as palavras alguma vez proferidas na esperança frustrada de obter mais que um monossílabo. Os suspiros entre as diferentes tentativas de captar a sua atenção já denotam cansaço, mas ela continua. Até um dia. Continuarão os dois a dançar este tango descalços sobre os espinhos das rosas que juraram oferecer um ao outro, até um dia descobrirem que, ao contrário do Amor, o sofrimento tem limites.
A minha atenção muda para um casal de sexagenários que se aproxima de mãos dadas com um petiz que não deve ter mais de 6 anos de mão dada ao avô. Sentam-se no banco ao meu lado direito. Sá esquerda para a direita, neto, avô e avó. O puto desata a correr, os avós continuam de mãos dadas. Depois de uns minutos de correria volta ao ninho e desembrulha com uma avidez de criança um kinder que a avó tira de uma daquelas malas onde as mulheres guardam tudo o que não lhes cabe no coração. Com o chocolate despido ao vento o puto lá o vai comendo deliciando-se com a doçura. É novo demais para saber que tem ao seu lado direito, e não na sua mão direita, a maior doçura que alguma vez conhecerá na vida. Os três juntos são nesta manhã as três pessoas mais felizes do planeta, tenho a certeza disto.
12h20 - Lá vou eu a pé monte acima para Nogueira e para casa dos Gonçalves. Repito com gosto uma das minhas peregrinações preferidas de sempre, já feita mais vezes do que as que sei contar. Nunca conheci na vida nada mais precioso do que pessoas cujos olhos brilham quando nos vêem. A casa dos Gonçalves sempre foi dos meus santuários preferidos, umas vezes fui lá em busca de apoio, outras em busca de companhia, por vezes para matar saudades, sempre com um prazer enorme.
13h30 - Minho Center. Está a chegar o Miguel e há no meu futuro próximo à minha espera um almoço em Escudeiros com ele, a Sandra e as suas maravilhosas filhas, a Carolina e a Margarida. Como de costume a Margarida, do alto dos seus 5 anos recebe-me com um emblemático "olha o Nicolae", depois do qual faz de mim colchão e saco de pancada, com uma inesgotável energia e um sorriso onde toda a ternura do hemisfério norte se encontra concentrada. Fazemos uma farra do tamanho de uma galáxia de médias dimensões e, perto de nós, com os seus dez aninhos a Carolina parece claramente a mais adulta criatura viva.
16h00 - Minho Center outra vez. Chega a Cândida. Lanche na casa da madrinha com a sua mamã. Entre dores e angustias pelo estado do país, relatos de cerca de ano e meio de ausência de conversa e preocupações maternais reforço uma das certezas da minha vida, se a força de um homem se pode medir pela paixão e dedicação que coloca no que faz, a sua segurança só pode ser avaliada pelos alicerces que o sustentam. E este é dos que tem a resistência do titânio e a beleza do diamante. Não é por aqui que um dia cairei.
19h00 - Delicatum, once again. Actualmente o meu ninho em Braga. Depois de um dia a andar de um lado para o outro finalmente sossego. Vai começar o jogo do Barcelona. A seguir a um vortex de emoções, agora uma banalidade para repousar a alma. Já estava a precisar.
publicado por Nicolae Santos às 20:00

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