Janeiro 01 2013
Butch Cassidy e Sundance Kid são perseguidos e cercados pelo exército Boliviano e acabam em frente a uma cascata, com duas opções bastante simples à sua frente, ou são apanhados e mortos, ou saltam. A cascata tem uma altitude de uns 200 metros e enquanto debatem o que fazer, um dos dois (não me lembro qual) manifesta a sua preocupação porque se saltarem ele não sabe nadar. O cómico da situação escapa a muitos, mas para muitos outros a conclusão é óbvia e só apetece gritar-lhe aos ouvidos "Oh meu imbecil, é a queda que te vai matar"!
As quedas de água, apesar de darem origem a paisagens bonitas, não são os locais mais agradáveis para se cair. A paisagem é irregular e as rochas salientes mais que muitas. A morte é praticamente garantida ainda antes do corpo beijar a água que o espera. É mais ou menos o que se passa nas quedas que damos na vida. Estamos sempre preocupados com o que nos acontecerá no final da queda, e esquecemos-nos olimpicamente que muitas das vezes são as quedas em si que acabam connosco. Todos nós temos limites que, apesar de muitas vezes os ignorarmos ou fazermos de conta que não existem, a realidade é que eles estão lá. É verdade que muitas vezes quando somos verdadeiramente testados descobrimos que aguentamos muito mais do que aquilo que pensávamos, mas pretender resistir sempre a tudo sem marcas ou cicatrizes é uma das mais perigosas arrogâncias, ou seja, é a minha preferida.
Desta vez, no entanto, é diferente. Não sei se é da idade se de uma progressiva e irritante descrença, não sei se são alguns sonhos que foram caindo pelo caminho que começaram a apodrecer, como escreve o Paulo Coelho, e que transformaram a minha alma (se é que a tenho) numa manta de necroses. Pode ser simplesmente cansaço, muito, muito cansaço. Certo é que sou vítima de um feitio por natureza insatisfeito que faz com que procure sempre o melhor. Não me satisfaço com pouco, quero mais e melhor, na amizade, nos sentimentos, nos livros, músicas, relações e experiências. Pode parecer bom para alguns, mas outros sabem os riscos que isto carrega. Há uma continua e desgastante incapacidade para aceitar o típico "está bem assim, não mexas mais". Ouço amigos explicarem-me porque aguentam situações insustentáveis porque mudar é chato, outros metidos em namoros e casamentos com mulheres que "são umas queridas e gostam tanto deles" tendo qualquer laivo de magia morrido dois ou três meses depois do inicio. Temo a inércia mais do que tudo, tenho um pavor de viver uma vida com alguém que não me arrebate todos os alicerces desde o primeiro bom dia, fujo de rotinas planificadas ao milímetro como fujo de uma claque de futebol não açaimada. No entanto isto tem custos. Persigo o impossível e perco, perco sempre. Ou pelo menos não venço há mais tempo que o que me consigo recordar. E isto deixa marcas e cicatrizes, com o tempo começa a ser doloroso demais. Fui chamado há duas semanas para um combate que terá tanto de terrível como de importante. É particularmente injusto ter que o travar neste momento que me sinto particularmente fraco, pelo menos fraco demais para aquilo a que me habituei a ser, mas se vivêssemos por encomenda éramos todos desinteressantemente satisfeitos. Desta vez vai ser duro, logo se verá se duro demais para mim ou se apenas mais um dragão que tive que abater a caminho do arco íris. Há ainda a esperança, pelo menos uma réstia dela, o que pode fazer a diferença. Só preciso de evitar as rochas e sobreviver à queda. Quando chegar lá abaixo logo se vê, não estou preocupado com isso por agora. Além de tudo o resto, sou em excelente nadador.
publicado por Nicolae Santos às 20:32

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