Março 26 2015

Napoleão foi um génio. Quem não concordar está em desacordo comigo, logo com uma fortíssima probabilidade de estar errado. Dito isto, que é do mais elementar bom senso, ele cometeu erros e desbaratou uma conjuntura muito favorável que criou com a sua genialidade e o sangue de muitos soldados franceses. Tal como as suas vitórias, os erros foram pelo menos do mesmo calibre e conduziram à sua queda prematura. As batalhas de Jena - Auerstedt marcaram o seu ponto mais alto, a sua vitória absoluta. Apesar de terem passado mais 7 anos até à sua queda, a realidade é que depois dessa gloriosa dupla jornada, a trajectória descendente iniciou e só terminou na ilha de Santa Helena.

Na dupla batalha de Jena - Auerstedt o grande exército de Napoleão estava dividido em duas colunas, uma com 40.000 homens e outra com 20.000. Mais ou menos a meio deles estava o destacamento de Bernardotte, um dos melhores generais franceses. Os prussianos, que não eram parvos de todo, aperceberam-se da divisão e cometeram um erro trágico (eu disse que não eram parvos de todo, mas eram um bocado). Em vez de caírem com os seus 120.000 homens em cima de cada uma das partes do exército Francês, dividiram-nos e mandaram 60.000 contra Napoleão, que estava em Jena, e outros 60.000 contra Davoult que andava por Auerstedt. A norte as coisas correram-lhes bem, durante um certo tempo. Depois Napoleão fez o costume, bloqueou o ataque Prussiano, fez pressão sobre uma das alas e quando os prussianos enfraqueceram o centro para defender o ataque ele atacou o centro e fê-los em farinha. Em Auerstedt as coisas não chegaram a correr bem. Com o comando Prussiano dividido por três homens, Davoult não teve dificuldades em prever os movimentos lentos do inimigo e quando as ordens prussianas chegavam aos seus homens eles já estavam a atravessar o rio Styx com duas moedas nos olhos e muitos buracos no corpo. Enquanto isto, Bernardotte num estranho ataque de inércia ficou à espera de ordens, o que valeu aos prussianos a diferença entre a derrota catastrófica e a destruição total. No final do dia, o confiante exército Prussiano, que andava a ser construído desde Frederico, o Grande, já não existia, a não ser meia dúzia de Regimentos que fugiram para ser derrotados passadas umas semanas.

Napoleão ocupou Berlim e forçou uma capitulação total e humilhante da Prússia, o que teve consequências trágicas, não sem antes ter desancado Bernardotte à frente de toda a gente e o ter exilado para a Suécia. 6 anos depois Bernardotte era Rei na Suécia e alinhou com os aliados contra Napoleão, outra consequência nefasta do mau feitio do baixinho da Córsega. No tratado de paz a Prússia perdeu só metade do seu território, passou a ser um estado fantoche da França e os restos do seu exército forçados a combater às ordens de Napoleão. Foi formado o Grão-Ducado da Polónia, outro insulto grave que teve o condão de irritar também a Áustria e a Rússia, e a resistência prussiana assumiu contornos de nacionalismo Alemão, o que levou uns anos depois à unificação alemã. Para acabar de temperar o prato, os prussianos analisaram bem o que falhou e reformaram completamente a estrutura relativamente feudal do seu exército, profissionalizaram-no e em 50 anos tinham a mais temível máquina militar da Europa que, sucessivamente, limparam a Áustria em 1865, a França em 1871, terminaram a 1ª guerra mundial sem ter sido claramente derrotados na frente ocidental e tendo vencido completamente na frente oriental, e na 2ª guerra mundial, quase que a venceram, apesar da burrice de Hitler e de terem que limpar constantemente as asneiras dos italianos. Este foi um dos casos clássicos em que os derrotados cresceram com a derrota, ao contrário dos vencedores.

Depois da sua vitória completa contra a Prússia Napoleão acreditou na fama da sua invencibilidade e meteu-se no vespeiro da Península Ibérica. Perdeu por aqui 300.000 homens tendo apenas dominado a Espanha episodicamente e nunca ter vergado Portugal. Em 1809 foi atacado de novo pela Áustria, que percebeu que a França tinha 2 frentes para combater e, apesar de nova vitória francesa, as baixas foram astronómicas porque os aliados estavam a aprender a anular as tácticas napoleónicas. Em 1812 num acesso de demência, invadiu a Rússia com um exército que tinha 1/3 de franceses e 2/3 de tropas aliadas sem grande qualidade nem vontade de combater. O resto é bem conhecido, frio, fome, doença, muita fome, ainda mais frio e dos 450.000 homens que atravessaram o Vístula, 25.000 atravessaram-no de volta. Na campanha de 1813 os 150.000 franceses recrutados à pressa e sem veteranos nem cavalaria foram atacados por 400.000 aliados com o resultado, não só conhecido como também esperado.

Jena - Auerstedt foi a preia-mar de Napoleão. Depois disso, manter o ascendente que tinha conquistado foi mais difícil que conquistá-lo. São muitos os motivos pelos quais o considero o maior génio militar do mundo moderno, e o que fez na França no pouco tempo que conseguiu governar em paz foi extraordinário. Caiu vergado ao peso do seu ego e do mito de invencibilidade que criou e propagou aos 4 ventos, ainda assim tenho pela figura o maior respeito. Não subscrevo os roubos nem os saques que fez, não concordo com a quantidade incontável de tesouros históricos e culturais que pilhou para adornar os museus franceses, mas não posso negar em momento algum que mudou a História. Para terminar, se conquistou como ninguém, também errou como poucos. Gosto de pessoas que, nas vitórias ou nas derrotas, o fazem em grande. Arriscou tudo em todo e qualquer momento, umas vezes venceu, outras perdeu, mas ninguém pode duvidar que colocou tudo em campo sempre que a tal foi chamado, como no ataque ao centro em Austerlitz ou na carga da Guarda Imperial em Waterloo. Em Portugal fala-se muito na sua agressão e pouco na sua grandeza, é normal, fomos invadidos três vezes, mas também é pena. Nenhum perfil histórico, nenhuma avaliação pessoal será completa sem analisar todas as suas vertentes.

publicado por Nicolae Santos às 11:31

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