Agosto 02 2016

Um dos termos mais vezes mal utilizados em política é o Populismo. Apesar de estarmos a atravessar uma conjuntura internacional em que, de facto, o populismo tem crescido, aqui no consumo interno o termo é usado muitas vezes levianamente. Isto tem causas, obviamente. A primeira das quais é a conotação negativa que o termo tem, e ainda bem. É fácil tentar colar a imagem de um político ao populismo, a reacção da maioria das pessoas é alérgica quando a ouve e isso faz com que seja um dos ataques mais eficazes para se fazer a alguém. A segunda razão, para mim a principal, está relacionada com uma confusão generalizada entre os termos "popular", "demagogo" e "populista".

Em relação à popularidade não creio que existam muitas dúvidas. Um político é mais ou menos popular consoante a sua capacidade para atrair a simpatia do eleitorado. A popularidade nem sempre está relacionada com reconhecimento de competência, temos casos de políticos cuja competência nunca foi posta em causa, mas que nunca foram populares, assim de repente recordo a Manuela Ferreira Leite.

No que respeita à demagogia, já a história é diferente. A demagogia está relacionada com a capacidade, mais que a capacidade, com a prática de utilizar um discurso que seja popular ainda que não corresponda à realidade da situação política, ou às verdadeiras intenções de quem o profere. Neste campo não há partidos inocentes, mas se puder dar um exemplo, e posso porque sou eu que estou a escrever, basta recordarmos Passos Coelho a garantir que não precisava de cortar salários nem subsídios para endireitar as contas públicas. A apoteose da demagogia. Juntando estes dois conceitos, é óbvio que um político pode ser popular sem ser demagogo, e o contrário, apesar de mais raro, também é possível. Ser demagogo sem ganhar popularidade é simplesmente ridículo, se a demagogia não dá popularidade a sua simples razão de existência, não existe.

Com o populismo a conversa é mais complexa. O populista tem toda uma atitude e prática política que é como uma impressão digital, ou um teste de DNA. O populista tem um discurso que apela à emotividade e moralidade, nunca à razão. O populista tenta criar uma relação afectiva com o eleitorado, e quando combate discursos adversários recorre frequentemente à moralidade, sua e do seu discurso, por oposição à imoralidade dos pontos de vista adversários. O populista foge de argumentos racionais porque na sua estrutura mental racionalizar um tema significa colocar o adversário ao seu nível, e o populista está sempre acima de todos os outros. O populismo é profundamente anti-institucional. As instituições político-administrativas barram a sua relação directa e emotiva com o eleitorado num sistema de "checks and balances" criado exactamente para impedir a apropriação das Repúblicas por homens providenciais. Os populistas lidam directamente com o eleitorado, apelam às suas emoções, normalmente as negativas, como o medo, a insegurança, a apreensão. O seu discurso tipo é o de apontar o que está errado, exagerando sempre no diagnóstico, dizer de quem é a culpa, quase sempre atacando as instituições que sustentam o sistema (Parlamento, partidos, tribunais, etc) e depois apresentar-se como a solução para todos os males, a maior parte das vezes graças às suas características pessoais e raramente com um programa político estruturado.

Temos assim que, voltando atrás, podemos ter políticos populares que não são demagogos nem populistas, podemos ter políticos populares e demagogos que não são populistas, e podemos ter políticos populistas, que são sempre demagogos e muitas vezes populares, como por exemplo Santana Lopes, o exemplo máximo de um populista que atingiu maior sucesso em Portugal. Temos tido em Portugal uma espécie de válvula de segurança que impediu populistas de chegarem alto no edifício político-administrativo, o que já não acontece no nível autárquico onde, apesar de estar organizado no sentido de promover a eleição por lista, a realidade é que as eleições são grandemente personalizadas favorecendo as práticas populistas. No meu ponto de vista a forma de eleição dos Deputados, em regime de lista fechada, funciona como tampão à subida de populistas na estrutura política do estado. Apesar de continuamente criticado, sou dos que considera que o nosso sistema político favorece a estabilidade, e posso acrescentar que tenho muitas reservas aos círculos uninominais por entender que podem permitir/favorecer discursos populistas por parte de candidatos a Deputados que passariam a representar uma circunscrição muito menos, logo a depender desses eleitores de forma muito mais forte, mas essa é uma conversa para outro texto.

publicado por Nicolae Santos às 22:00

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