Fevereiro 27 2017

A guerra civil americana é, na minha imodesta e correcta opinião, a guerra mais complexa e interessante. O facto de ter sido travada da forma que foi, pelas razões que foi, e com a violência que a caracterizou fez com que ainda hoje seja assunto de debate. Além disso, ou por causa disso, a cultura popular ocupou as trincheiras vazias de soldados desde 1865 e em muitos casos subverteu mesmo o resultado da dita guerra.

Para começar, não foi uma guerra civil. Na minha opinião, e agora vou ser modesto e assumir que posso estar errado, a guerra de 1861-1865 foi uma guerra entre dois estados nação perfeitamente identificados, com culturas diferentes, visões económicas e sociais antagónicas. Essas duas nações conviveram dentro do mesmo estado, mas sempre em conflito. Quando os mecanismos de regulação intrínsecos ao sistema americano deixaram de funcionar separaram-se, guerrearam-se, os Estados Unidos venceram, os Estados Confederados foram conquistados e absorvidos mas a nação confederada continuou, e em muitos aspectos ainda continua. Reduzir a guerra, as razões que a originaram e as consequências dela a um conflito regional é tão simples e redutor como homericamente errado.

Voltando ao título disto, "a causa perdida" é uma teoria neo-confederada para justificar a derrota total e completa dos Estados Confederados da América. Começou a ser espalhada logo a seguir à guerra se bem que só ganhou força na década de 1890, e já em meados do século XX, com a ajuda de Hollywood passou a ser quase universalmente aceite, inclusivamente pelos vencedores. De acordo com esta teoria, a supremacia dos Estados Unidos era tão grande em homens e capacidade industrial que os Estados Confederados não tinham a mínima hipótese e era uma questão de tempo até à sua derrota final. As dimensões deste disparate são tão grandes que se tivesse presença física seria visto do espaço. Em primeiro lugar, e mais importante de todos, os Estados Unidos para vencer a guerra tinham que conquistar os Estados Confederados, não tinham outra hipótese. Os ECA só precisavam de defender o seu território, não tinham que invadir nada nem ninguém, ficar fortificados a travar batalhas defensivas e a sangrar os exércitos invasores. Estamos a falar de uma guerra entre duas nações democráticas onde as opiniões públicas condicionavam a acção dos governos, os ECA só tinham que convencer as mães e as esposas do Vermont, Wisconsin ou Rhode Island que era uma estupidez os seus filhos e maridos continuarem a morrer para que 11 estados rebeldes voltassem à União. Travar uma guerra defensiva é muito mais vantajoso, ainda por cima esta guerra, em que os avanços tecnológicos tornaram a matança em campo de batalha numa actividade bastante profícua. Os EUA para vencer tinham que ocupar militarmente um território do tamanho da Europa, da nossa costa atlântica à fronteira com a Rússia. Tinham que o fazer controlando uma população hostil, com péssimas vias de comunicação, usando exércitos enormes que tinham que se deslocar, acampar, comer todos os dias e estavam longe das suas bases e com linhas de abastecimento enormes e sujeitas a ataques de guerrilha, tirando o inverno, exactamente o que deu cabo de toda a gente que invadiu a Rússia.

Em segundo lugar os parolos dos confederados, e hoje em dia continuam parolos, estavam habituados a um estilo mais rural, com mais contacto com armas. Eram melhores caçadores, melhores atiradores e melhores cavaleiros, além de estarem habituados a viver do terreno, ao contrário dos citadinos soldados da União que tiveram que ser treinados para a guerra durante a mesma.

Em terceiro lugar, e fico-me por estas três, o corpo de oficiais do exército confederado tinha os seus melhores homens concentrados no teatro de operações da Virgínia, claramente o mais importante. Aí os exércitos da União foram sendo massacrados um após o outro durante os três primeiros anos da guerra. Só quando Grant foi transferido do Mississipi para a Virgínia é que Lee encontrou alguém que sabia lutar, pelo menos tão bem como ele, e a guerra seguiu em direcção à vitória completa da União sobre a Confederação.

Os Estados Unidos tinham vantagens importantíssimas sobre os Estados Confederados, mas a teoria da "causa perdida" é um disparate completo, aliás, foram vários os momentos em que os Estados Unidos estiveram quase a abandonar a guerra. Esta é uma teoria neo-confederada para tentar escamotear o facto de terem arriscado tudo num confronto que, podendo ganhar, perderam de forma inapelável. A chamada guerra civil americana é um caso raro e paradigmático de como os derrotados venceram na guerra cultural e pela história que se seguiu à sua derrota completa nos campos de batalha, mas para escrever tudo sobre isso precisarei de muito mais que um texto.

publicado por Nicolae Santos às 11:59

Fevereiro 23 2017

Os Estados Unidos são uma aula prática de gestão do caos desde o início. As treze colónias que lhes deram origem têm origens muito diferentes, mas vamos simplificar e partir do princípio que tiveram origem em cartas de colonização em que tipos muito ricos ou associações de investidores obtiveram da coroa inglesa o direito de exploração de parcelas do território da costa leste americana. Em alguns casos o território dessas futuras colónias estava muito bem limitado, em outros apenas se dizia que era entre o paralelo tal e o outro pararelo tal, "de uma costa à outra", ou seja, do atlântico até ao pacífico. Para piorar, existiam colónias com limites fronteiriços sobrepostos, logo, territórios que de acordo com as cartas originais podiam pertencer a duas ou três colónias.

Durante a guerra da independência isto não interessou para nada. As colónias americanas estavam organizadas até aos montes Apalaches, o que estava para oeste já tinha começado a ser colonizado, mas sem grandes chatices ou preocupações com jurisdições territoriais. Corridos os ingleses, o tratado de Paris atribuiu aos Estados Unidos todo o território entre os Apalaches e o Mississipi, aqui começou o segundo grande problema que o novo país enfrentou, e quase acabou com ele. Em primeiro lugar, existiam sete estados que, de acordo com as cartas de colonização originais teriam direito aos novos territórios, quase sempre com reivindicações sobrepostas, em segundo lugar, existiam seis estados com o território bem limitado sem qualquer direito aos novos territórios. Como é bom de ver, os estads pequenos não queriam que os estados grandes ficassem ainda maiores e viessem a ganhar mais preponderância na nova federação, os estados grandes queriam fazer valer os seus direitos.

Os americanos sempre foram bastante criativos a arranjar problemas, quase tanto como o foram a resolvê-los. A nova e ainda insípida federação resolveu a situação da única forma que agora parece possível. As fronteiras dos treze estados originais manter-se-iam, depois de resolvidos alguns conflitos, e os novos territórios ganhos na guerra não seriam atribuídos a nenhum estado já existente, mas seriam organizados na forma de novos estados que entrariam para a federação assim que tivesse 50.000 habitantes, órgãos políticos eleitos e rectificassem a Constituição. Desta forma os estados pequenos não se sentiram menorizados e ficou estabelecido que a federação teria mais que os treze estados originais. Houve no entanto um problema a resolver, como convencer os estados com reivindicações a ceder ? Mais uma vez, muito simples. As dívidas contraídas por cada colónia para combater durante a guerra da Independência passaram para cada um dos estados. Os estados maiores eram os que estavam mais endividados, logo, a dívida dos estados passou a dívida do governo federal, em troca da cedência das pretensões aos novos territórios. Assim, foi elaborada a Lei do Noroeste que atribuíu toda a terra a noroeste do rio Ohio ao governo federal em troco da assumpção da dívida dos estados por parte desse mesmo governo federal. Esse território do noroeste veio com o tempo dar origem aos estados do Ohio, Indiana, Michigan, Illinois, Iwoa, Wisconsin e Minessota, aquilo a que se chama o centro-oeste que nas últimas eleições se encheu de barbitúricos e opiácios e deu a vitória a Trump.

Terminando, e como bom federalista que sou, é mais ou menos uma solução destas que defendo ara a União Europeia, no que diz respeito à dívida dos seus países. Gostava que existissem federalistas em número suficiente e com poder suficiente para propôr a federalização da dívida de todos os países que a têm acima dos 60% previstos nos tratados europeus. Não sei em favor de que cedências, nem sei como seriam beneficiados os países que a têm controlada. Quando o souber concorro a Eurodeputado e aviso-vos.

publicado por Nicolae Santos às 11:06

Fevereiro 22 2017

O uso de moeda por parte dos governos como instrumento económico e financeiro é pelo menos tão antigo como o império romano. Hoje em dia estamos habituados a pensar neste assunto só em função da balança comercial, a desvalorização da moeda favorece as exportações em favor das importações, precisamos de mais dinheiro para comprar lá fora, e os outros de menos para comprar cá dentro. Muitos até se queixam que a entrada na moeda única foi um erro por nos ter retirado esse poder de intervenção no valor da moeda, eu acho uma análise simplista e perigosa, mas também não me vou chatear muito com isso agora.

A realidade é que as desvalorizações da moeda são de facto antiquíssimas, e quando iniciaram não estavam relacionadas com a balança comercial. Em Portugal creio que as primeiras desvalorizações são do início do século XIV. Na altura chamavam-se "quebra de moeda" ou seja, a coroa cunhava moeda com o mesmo valor nominal, mas diminuía o teor em metal precioso (ouro ou prata) nas novas moedas cunhadas. Uma moeda de 10 reais continuava com o seu valor nominal de 10 reais, mas na prática o seu valor real baixava, porque tinha uma menor porcentagem de metal precioso. Estas quebras de moeda não eram feitas por capricho real, como é óbvio. Estavam relacionadas com necessidades urgentes de financiamento da coroa, muitas vezes por causa de guerras como aconteceu com D Fernando, além de outra questão dramática para a Europa do final da idade média, a escassez de metal precioso. As quebras de moeda tiveram um resultado óbvio e algumas consequências não tão óbvias mas importantes. O resultado óbvio foram picos inflacionistas, se a moeda passava a valer menos os preços aumentavam, passava a ser precisa mais moeda para comprar o mesmo. Como consequências tivemos em primeiro lugar aquilo que foi descrito pela lei de Gresham, tornada conhecida por Cavaco Silva. A boa moeda (com maior teor em metal precioso) era guardada como poupança enquanto que a má moeda (com menor teor em metal precioso) passava a circular quase em exclusivo. Depois tudo isto teve um efeito bola de neve, uma quebra de moeda aumentava a inflação e era necessária mais moeda a circular, como a escassez de metais preciosos se mantinha ou agravava, era necessária outra quebra de moeda que levava a outro pico inflácionário. Claro que foram encontrados outros mecanismos para fazer face a isto, um dos principais foi o lançamento de impostos. Por exemplo, D João I, um tipo com um encéfalo bem porreiro para aquele tempo, em 1387 propôs o lançamento de um imposto extraordinário para financiar a coroa como alternativa a uma nova quebra de moeda. Está bom de ver que foi encarado pela burguesia e pequena nobreza como uma excelente ideia, visto que a inflação os preocupava muito mais e a prática foi repetida outras vezes. Outra consequência das quebras de moeda, esta fantástica para a coroa foi que muito dos contratos fundiários com os senhores feudais foram feitos em função de pagamentos anuais ao rei, muito desses pagamentos em metal. Com as quebras de moeda, os senhores feudais passaram a necessitar de cada vez mais moeda para satisfazer o pagamento combinado em metal. Muitos não os conseguiram satisfazer e acabaram por ter que entregar os seus feudos ao rei, o que foi um instrumento poderosíssimo na centralização do poder real, depois do espartilhar do mesmo durante os anos da reconquista.

A última consequência foi o início da expansão marítima. Com falta de metais preciosos e com inflações constantes, a necessidade de ouro levou-nos para Ceuta, um centro de comércio importante onde as caravanas de ouro vindas do sul do Sahara terminavam. Fala-se muito da expansão da cristandade como motivo para a expansão mas, convenhamos, essa foi a desculpa, tal como as armas de destruição maciça serviram de desculpa para intervir nos preços do crude. Em última análise, o postulado de James Carville durante a primeira campanha eleitoral de Bill Clinton já estava correcto 580 anos antes, "é a economia estúpido".

publicado por Nicolae Santos às 09:46

Fevereiro 20 2017

Creio que foi Max Weber quem, ao escrever sobre as instituições do estado, estabeleceu a diferença entre instituições inclusivas e extractivas. Segundo ele, de forma resumida, as instituições inclusivas são as que favorecem consensos, equilíbrios e negociações. São instituições que levam tempo a construir e a solidificar, que quando estáveis têm o bem comum como prioridade sobre os interesses particulares, só funcionam quando os intervenientes têm a capacidade de abdicar de ganhos particulares em função de um ganho maior para o colectivo. Por outro lado, as instituições extractivas são fortemente corporativas, olham ao interesse particular acima do geral. São estanques no pensamento e resistentes à mudança, a não ser que essa mudança signifique ganhos imediatos para a classe ou corporação profissional que representam.

De acordo com estas definições, Portugal tem um problema grave, aliás tem vários. As nossas instituições são, grosso modo, criadas em revoluções e não em evoluções graduais. Recorrendo só às 5 últimas (1820, 1834, 1910, 1926 e 1974), em cada uma delas houve uma vontade e necessidade de virar a página e substituir o que existia por algo novo. Em algumas destas revoluções (excluo a de 1926 e não preciso explicar a razão) existiu de facto um esforço de criar instituições novas que atribuíssem ao país, quer mais democraticidade e maior envolvência e controle do poder de quem governa, quer mais liberdade económica, social e política.

O outro problema grave é que a nossa sociedade é demasiado imediatista para projectos de futuro terem grande esperança de resistir. Depois das ditas revoluções, e antes de as novas instituições terem cumprido o seu prazo de maturidade, os interesses corporativos iniciam o seu assalto ao poder e vão, paulatinamente substituindo as instituições inclusivas pelas extractivas que, uma classe ou uma corporação de cada vez, recapturam os recursos do estado em favor das suas necessidades/interesses.

Esta conversa toda vem por causa do actual esforço do Governo na área da descentralização. O PS lidera um Governo minoritário com apoio parlamentar obtido nos partidos que, nunca foram expulsos do arco governativo mas sempre se colocaram fora dele, é importante recordá-lo para que uma mentira dita muitas vezes não se torne verdade. Ao colocarem-se fora do arco governativo sempre foram defensores da descentralização e/ou regionalização. Agora que têm acesso ao governo central, ainda que só através da sua capacidade de influência em decisões políticas, basta ver as declarações de PCP e BE sobre a transferência de novas competências para as autarquias, para perceber que mudaram a agulha. Agora que podem influenciar a governação a nível nacional já não a querem dividir pelas autarquias locais. É um exemplo clássico de lutar pela divisão do poder, quando não têm acesso a ele, e lutar pela sua concentração quando o podem influenciar. O caso mais paradigmático é o da educação, onde tendo o PCP o controle efectivo da FENPROF, e tendo através deste acordo de Governo a FENPROP uma capacidade de influência que nunca teve antes, qualquer descentralização de competências educativas pelas autarquias será combatida sem trégua, eis como uma instituição inclusiva é atacada para ser substituída por uma exclusiva, onde os interesses de uma corporação profissional, e indirectamente os interesses políticos do partido que a controla, são colocados à frente dos interesses globais de toda a comunidade educativa e das comunidades locais.

Espero sinceramente que o Governo e o PS não se deixem capturar na questão da descentralização, que é uma das nossas mais importantes e emblemáticas bandeiras desde há muitos anos.

publicado por Nicolae Santos às 10:10

Fevereiro 10 2017

Gosto da expressão "Idiota útil". Costumava ser atribuída aos aliados ocidentais dos países de regimes comunistas, aqueles que espalhavam a propaganda soviética e, pensando-se muito importantes, eram desprezados pelos próprios gajos a quem lambiam as botas.

Nós aqui em Portugal também temos um idiota útil, chama-se Marcelo, em homenagem ao padrinho, e Rebelo de Sousa por genealogia. A última "Marcelice" foi explicar que emitir dívida a 5 e 7 anos é benéfico porque permite pagar juros mais baixos e, pagando juros mais baixos, permite aliviar as taxas de juro das emissões de dívida a 10 anos. Nem sei bem por onde começar. É mais ou menos assim, se eu for agora para a ria formosa e começar a tirar água um copo de cada vez posso garantir-vos que, no máximo em seis horas, a maré estará vazia.

Quanto menor for o prazo de pagamento de dívida menores são os seus juros, isto é óbvio, o que interessa comparar é a evolução dos juros dentro do prazo de maturidade, e não entre prazos diferentes. Os juros da dívida aumentam quando é anunciada a ida aos mercados e diminuem depois, isto também é tão óbvio que não merece explicação. O que já não é tão óbvio, mas Marcelo deveria saber ou pagar a alguém para lhe explicar, é que no mercado primário as variações nas taxas de juro são suportadas pelos contribuintes, mas no secundário os benefícios são transferidos para os investidores por reforço do preço das obrigações.

Sinceramente, em toda esta conversa preocupam-me duas coisas, ter uma agência que nos coloca acima de lixo e ter o BCE a comprar dívida. Enquanto isso acontecer, há espaço para brincar, dizer que a economia vai crescer, o défice vai diminuir por causa do crescimento da economia e depois diminuir porque se deixou de pagar a fornecedores, e outras coisas dessas. Se o BCE atinge o ratio de 1/3 de dívida e deixa de a comprar, aí nem a pós-verdade tão na moda nos lava.

Sempre disse que o problema mais grave que Costa enfrentaria nesta Legislatura seria quando a geringonça gripasse e ele acabasse nas mãos de Marcelo. Felizmente errei, aliás, espero errar em muito mais coisas que estou a ver antes do tempo, garanto que nunca quis errar tanto na vida. Voltando atrás, foi Marcelo quem se colocou nas mãos de Costa, foi esse o erro de análise que cometi. Marcelo precisa que Costa não seja candidato em 2021, logo, precisa que a geringonça funcione. Ele está a ser o idiota útil do governo para evitar que o eleitorado de esquerda o puna por não ter estado do lado do governo. A questão é que ao associar-se de forma tão íntima ao governo, ao ponto de passar por seu porta voz, ficará ligado aos resultados do mesmo. Neste momento o nosso idiota útil não resistirá ao nosso falhanço. Por nós, e também por ele, espero bem que não falhemos. Espero tanto que Domingo vou voltar a ir à missa.

publicado por Nicolae Santos às 11:15

Fevereiro 09 2017

Todos os meus alunos do 8º ano aprendem uma coisa muito simples, a diferença entre relações intraespecíficas e relações interespecíficas. Quando digo que todos aprendem, o que quero dizer é que ensino a todos, a minha responsabilidade esgota-se na minha vontade. Adiante que isso não interessa nada, relações intraespecíficas são entre seres vivos da mesma espécie, relações interespecíficas são entre seres vivos de espécies diferentes, não são conceitos propriamente difíceis de assimilar.

Na competição intraespecífica dois seres vivos reconhecem-se como pares, ainda que competidores. Pelo território, alimentação, sexo (que é a soma entre território e alimentação), existe competição que normalmente termina com um vencedor e com um vencido. A questão é que, existindo o reconhecimento do outro competidor como um par, a competição normalmente esgota-se na vitória com sobrevivência do derrotado que vai pastar para outras freguesias. Na competição interespecífica, os seres competidores não se reconhecem como iguais, a predação é o melhor exemplo disto. Nesta forma de competição a mesma só termina com a eliminação física de um dos competidores. Não são pares, um vence e a sua vitória leva à destruição do outro.

Mais ou menos por esta hora devem estar a questionar o que uma lição básica de ecologia tem a ver com História militar. Bem, tem tudo. Ao longo da História a quantidade de guerras foi incontável, mas, se quisermos simplificar as coisas podemos dividi-las em dois grupos, as que foram travadas como competições intraespecíficas e as que foram combatidas como competições interespecíficas. No primeiro grupo temos os conflitos clássicos entre estados vizinhos por um rio ou um campo de cultivo, as guerras dinásticas sobre quem governaria, a maior parte das guerras civis. Há um ethos que é cumprido, combate-se para vencer mas não se tenta eliminar o opositor. No segundo grupo o objectivo é claramente a erradicação do grupo derrotado, a prática é predatória e foram as guerras mais trágicas de todas, pelo menos para os derrotados. Temos como exemplo grande parte das guerras coloniais, e, quase todas as guerras religiosas. É dramático como o facto de dar um nome diferente ao deus em que se acredita faz quase automaticamente um grupo ser considerado subhumano em relação ao outro, nem sequer há culpados e inocentes, apenas vítimas. Os católicos fizeram-no aos Cátaros, os protestantes aos católicos, os muçulmanos aos cristãos, todos aos judeus e agora os judeus aos palestinianos. Se quiserem complicar um bocadinho a simplificação, houve até guerras em que os combatentes se comportaram de uma forma em relação a alguns e de outra forma em relação a outros. Vejam a segunda guerra mundial e analisem a forma como os alemães combateram os aliados ocidentais e a forma como se comportaram na frente leste onde reduziram os eslavos à condição subhumana, já nem falo do tratamento dado aos judeus que foi predação pura tendo ultrapassado a apoteose do grotesco.

Como podem ver, isto anda tudo relacionado. Até a ecologia com a História da guerra.

publicado por Nicolae Santos às 11:20

Fevereiro 09 2017

Toda a gente que leu "Os três mosqueteiros" ou que viu o Dartacão conhece o Cardeal Richelieu. Quem não se enquadra nesses dois grupos não merece viver e pode contar com o meu incentivo para parar de gastar oxigénio valiosíssimo, obrigado.

Armand Jean du qualquer coisa que não me recordo, Cardeal da Igreja Católica, Primeiro Ministro de Luís XIII, Rei de França. Poucos homens mudaram tanto o mundo como ele, pelo menos se pensarmos em termos geopolíticos. Se acompanharam os meus últimos textos, eles serviram de introdução para este. Se não acompanharam, azarito, não sou responsável pelas vossas más opções de vida.

Carlos V cercou e venceu a França. Fruto da sua ascendência e da prata que chegava da América herdou e cimentou um império fabuloso, depois disso vergou a espinha de Francisco I da França e, no seu maior e mais imponente apogeu, quando tudo estava semeado ao poder dos seus pés, a reforma protestante abanou o seu império quase absoluto.

A universalidade cristã caiu com a reforma. O princípio do poder de deus ao qual o poder do imperador respondia, enquanto executava a sua vontade deixou de existir como princípio geopolítico quando passaram a existir na cristandade interpretações diferentes da mensagem de deus. Depois da reforma, seja na vertente luterana, anglicana ou calvinista, ninguém podia reclamar o papel de único intérprete da vontade divina.

As guerras religiosas que começaram na revolta dos camponeses alemães em 1524 duraram mais de 100 anos, durante as quais a única coisa em que os beligerantes estiveram de acordo é que ambos matavam em nome de deus. No meio de toda a confusão, na França, o reino mais forte de todos, emergiu um Cardeal que, sendo católico, combateu a Igreja como ninguém. Richelieu "inventou" a Razão de Estado. Segundo o seu princípio bebido das veias de Maquiavel (por favor não me peçam para explicar esta ideia), não existindo um princípio universal que possa reger as relações internacionais, cada estado deveria agir em função dos seus interesses particulares.

A razão de estado de Richelieu levou-o a trilhar caminhos nunca antes tentados na diplmacia, pelo menos desde o advento da cristandade. Na defesa da França, Richelieu, cardeal católico, não o esqueçamos, aliou-se com protestantes e até com os turcos otomanos, para morder as canelas aos Habsburgos.

A sua obra prima foi a guerra dos 30 anos. Em 1618 em Praga uns senhores defenestraram outros. Não existiam leis contra o arremesso de lixo pelas janelas, vai daí, um grupo de nobres protestantes jogou pela janela um grupo de delegados do sacro imperador. Independentemente do contexto poético ao acto de atirar alguém por uma janela, a defenestração de Praga deu origem a uma das guerras mais terríveis da história da Europa, guerra que foi aproveitada por Richelieu como ninguém. Em menos de nada toda a Alemanha se transformou num campo de batalha. Sacto Império de um lado, com o apoio de Espanha, príncipes protestantes do outro. Os católicos levam a melhor mas depois entra a Suécia e varre-os à porrada. O rei sueco morre numa batalha e os católicos voltam a ganhar, depois a França católica entra do lado dos protestantes e volta a varrer os católicos à porrada. Trinta anos depois de uma orgia de destruição é assinada a paz de Vestfália, onde as Províncias Unidas emergem como independentes dos Habsburgos, tal como a Suiça, e o Sacro Império Romana, não acabando em termos oficiais, acaba como estrutura política a quem alguém dava atenção. É instituído o princípio da liberdade religiosa, segundo o qual a mudança de religião de qualquer rei o príncipe não obriga à mudança de religião do seu povo.

No final da guerra dos 30 anos a França emerge como o grande poder continental da Europa, ultrapassando a Espanha e arrasando o Sacro Império. Richelieu manteve a França afastada da guerra durante a primeira metade, financiando os estados protestantes, e só entrando na guerra quando já estavam todos fartos dela. No final a Alemanha estava completamente arrasada, a mortalidade em termos relativos superou à da segunda guerra mundial, só sendo equiparada à da Peste Negra, e por mais 200 anos não seria possível qualquer movimento de unificação alemã. E as relações internacionais nunca mais foram as mesmas. Sem fio condutor centralizado os estados começaram a basear a sua postura geopolítica baseados nos seus interesses, e até à Conferência de Viena de 1815, a Europa viveu quase 200 anos de guerras contínuas. Richelieu foi um génio e um dos governantes mais marcantes da Europa. O que ele logrou conseguir para o seu país em tão pouco tempo não está a alcance de muitos. Merece algum respeito, por muito chateados que ainda estejamos por ter usado a Milady de Winter para fazer a vida negra ao Athos.

publicado por Nicolae Santos às 09:39

Fevereiro 07 2017

Quem viu, ou leu, "O nome da rosa" não precisa de ser elucidado sobre como funcionava a Igreja na idade média, nem precisa de ser convencido sobre as muitas razões que levaram algumas pessoas a tentar reformá-la. Naquele que é para mim o discurso mais marcante da estória, um padre cujo nome não recordo e que sofria de cataratas (ainda não existia o Projecto Cuidar da Câmara Municipal de Olhão) explica que o objectivo da Igreja é manter o que existe e combater quaisquer laivos de mudança.

A Igreja na idade média era profundamente corrupta. Quando eu digo Igreja, estou a falar da instituição, com é óbvio. As crenças individuais das pessoas deixo-as numa prateleira diferente onde não mexo a não ser para defender o seu direito a elas, as instituições essas são passíveis, possíveis e desejáveis de crítica. A Universalidade sobre a qual escrevi há uns dias dava ao Papa um poder bem maior que o do nosso Secretário Geral das Nações Unidas, esse poder era usado muitas das vezes de forma discricionária em favor de quem pagava mais. Os exemplos sucedem-se. Foi um Papa francês que fez a vontade a Filipe, rei de França e mandou erradicar os Templários, foi um Papa espanhol que forçou a negociação do Tratado de Tordesilhas, etc, etc.

No meio de toda esta bagunça de corrupção e compadrio, começaram a surgir vozes críticas. Uma das primeiras foi Jan de Huss, um tipo da Boémia que criou os Hussitas, primeiro movimento assinalável de crítica ao Papado, e, boémio ou não, acabou por provar os efeitos terapêuticos de um belo fogo. Uns aninhos depois, Martinho Lutero abanou de vez o edifício. Na falta de raspadinhas e rifas para vender, uma das formas de financiamento da Igreja eram as chamadas "indulgências". Basicamente os lugares no céu estavam à venda como os lugares cativos do Estádio da Luz no início da temorada. Quem pagava entrava, quem não pagava, ou não pecava ou ardia nas eternas e infernais brasas. Lutero não achou piada à brincadeira e deu-se ao trabalho de escrever 95 teses contra as indulgências e pregou-as à porta de uma igreja alemã (não me lembro o nome da cidade). Alguns nobres alemães proibiram a venda de indulgências nos seus territórios, o Papa mandou prender Lutero, os nobres alemães defenderam-no. No meio disto foi reunida a Dieta de Worms para Lutero se retratar, mas, como é óbvio, depois de sujeito a uma dieta de vermes, em vez de se retratar reforçou tudo o que tinha defendido. Foi a loucura ! A maior parte da Alemanha passou-se para o lado da reforma e começou um século de guerras religiosas que varreram a Europa central, sendo a pior delas todas a guerra dos 30 anos, entre 1618 e 1648.

Além de Lutero ainda apareceu Calvino que, sendo ou não calvo, introduziu a reforma na Suiça e deu origem aos Huguenotes na França, que foram obrigados a festejar a noite de S Bartolomeu de 1572 bebendo bloody marys e comendo arroz de cabidela. Por sua vez, na Inglaterra Henrique VIII quis divorciar-se para casar com a Scarlett Johansson e o Papa, a mando de Carlos V, não deixou o que levou à separação da igreja da Inglaterra.

Esta estória toda não serve para nada, além de vos fazer perder tempo. Interessante é o que vem no próximo texto, de qualquer forma, obrigado por terem chegado até aqui.

publicado por Nicolae Santos às 10:25

Fevereiro 05 2017

Carlos V nasceu em Ghent no ano de 1500. A sua genealogia era uma espécie de colecção de casas reais e era garantido que se escapasse à mortalidade infantil, um dia teria a maioria da Europa nas suas mãos. Passou a maior parte da sua juventude nos países baixos dominados pelos Habsburgos, e, apesar de prometido a duas princesas francesas, que morreram antes de os seus corpos serem presenteados com o dom da fecundidade, acabou por casar com Isabel, filha de D Manuel I, rei de Portugal. Como a história se encarregou de demonstrar, a morte das donzelas francesas foi trágica, para a França e para Portugal. Para a França, por sem a partilha do leito real se tornou inimiga mortal de Carlos V, para Portugal porque a partilha do leito real produziu um Filipe II com aspirações ao trono português, aspirações concretizadas em 1580 (se acham que o sexo tem importância a mais na nossa sociedade, pensem outra vez nisto).

Quando assumiu as suas heranças o território de Carlos V cercava quase completamente a França, e, impedido pelo destino de fecundar as prometidas princesas, dedicou-se a fecundar o reino que não as conseguiu entregar nas condições acordadas. Tenho muitas dúvidas que tenha sido essa a sua motivação, de qualquer forma ele é Francisco I da França desenvolveram uma rivalidade só ao nível de Messi vs Ronaldo, mas na caso deles com exércitos. A porrada começou por causa do norte de Itália, já naquela altura os homens cometiam loucuras por pizzas e por italianas. A França era o reino mais poderoso da Europa, mas o conjunto de territórios de Carlos V era mais forte. Na batalha decisiva de Pavia o exército francês foi destruído e Francisco I aprisionado, dando origem ao conhecido ditado "Francisco em Pavia lixou-se num dia". 

A vitória foi tão decisiva que para se libertar do cativeiro Francisco cedeu tudo o que lhe foi exigido, menos a torre Eiffel que ainda não tinha sido construída, e a vitória no euro 2016, que só seria conquistada depois do nascimento do Éder. Houve outras guerras depois disso, mas a batalha de Pavia em 1521 marcou a quase assunção da universalidade cristã.

A universalidade cristã, em termos geopolíticos, baseava-se numa coisa muito simples que deriva de um princípio romano, "a deus o que é de Deus, a César o que é de César". De forma resumida, existe um poder espiritual governado por deus, cujo seu intérprete terreno é o papa. Os estados existem como emanações dessepoder, e aindaque os príncipes e reis governem as coisas mundanas dos seus povos, em última análise responderão perante deus, do qual o papa é o porta voz e o executor. De acordo com este princípio o papa trataria em Roma das coisas espirituais, o imperador em Viena trataria do resto. Tudo isto era muito bonito, mas a uma unidade religiosa nunca correspondeu uma realidade política, mesmo a unidade religiosa passou por vários cismas com papas é anti papas a insultarem-se entre Roma e Avignon. Os papas eram corrompidos para beneficiarem uns príncipes em função de outros, os reis tinham exércitos que facilmente sequestravam papas (o nosso Carlos V fê-lo para o papa impedir o divórcio de Henrique VIII com Catarina de Aragão, sua tia). Este festival de caos e confusão esteve à beira do fim com Carlos V. Ele uniu o Sacro Império Romano, acrescentou-lhe mais alguns reinos, incluindo a riquíssima Espanha. Ao criar uma unidade política uniforme, é tão estável quanto o era possível naquela altura, e conseguir a aliança com o papa, finalmente a universalidade cristã esteve ao alcance. Esteve só ao alcance, não foi atingida, foi mesmo destruída.

Como biólogo de formação sempre gostei dos princípios de feed back e retroacção. Na política e na geopolítica eles existem, tal como nos sistemas biológicos. Quando alguém se torna demasiado poderoso para poder dominar os outros ilimitadamente, fenómenos centrífugos destroem o seu poder excessivo, forçando a um novo equilíbrio. Assim aconteceu com Carlos V. No momento de seu maior poder, com a união entre papado e sacro império, rebentou a reforma protestante e em menos de um século, o sonho de universalidade cristã estava tão morto e enterrado quanto Carlos V, mas isso fica para outro texto.

publicado por Nicolae Santos às 10:49

Fevereiro 04 2017

A história da Europa é uma história de conflito. É - o desde a sua fundação, a queda do império romano do ocidente. Desde essa data mítica passaram-se várias fases. Inicialmente houve uma sucessão de guerras pela implementação dos novos reinos que resultaram das invasões bárbaras, depois a tentativa de restaurar o antigo império feita por Carlos Magno. O seu sucesso parcial foi ofuscado por duas catástrofes e uma inevitabilidade. A inevitabilidade foi a sua morte, as duas catástrofes, ter filhos idiotas e o direito germânico dividir as propriedades pelos filhos ao invés de a atribuir ao mais velho. Aliados estes três factores o resultado foi que o seu império acabou dividido por três idiotas, um Luís, um Otão e um Pepino (não, não estou a gozar, ele chamava-se Pepino). Uma das suas heranças deu origem à França, outra não sei bem a quê, a terceira a uma das coisas mais estranhas de toda a história europeia (mais do que o golo do Éder), o Sacro Império Romano - Germânico. Não vou perder tempo com ele, merece por si só uns 15 textos. O que quero mesmo escrever é que a morte de Carlos Magno da origem ao início do feudalismo, pelo menos na sua vertente geopolítica. Os estados são fracos, os monarcas controlados pelo papado, os governos centrais sem capacidade de se imporem aos senhores. Feudais. Cerca de 700 anos da história europeia são passados em guerras pela definição dos estados e, como na guerra dos 100 anos, por uma questão dinástica de saber a quem pertencia o reino de França (que durante a maior parte da guerra era Paris e uma data de condados praticamente independentes). 

Este status quo mudou em 1453. Os Capetos vencem a guerra dos 100 anos e a França emerge como reino unificado e estável, ao mesmo tempo que os turcos conquistam Constantinopla e acabam com o que restava do império romano do oriente. A partir de 1453 há um reino forte, centralizado e coeso na Europa ocidental, na península ibérica Portugal está nos descobrimentos, Castela e Aragão na reconquista, a Itália é uma bagunceira, a Alemanha um puzzle de centenas de micro estados, a Inglaterra uma confusão de guerras civis. Os dados estão lançados para uma hegemonia francesa, que cedo começa a olhar com fome para o norte de Itália e para os países baixos.

Sem que nada o fizesse prever e tudo o fizesse acontecer, da feliz mistura entre os testículos de um Habsburgo da Áustria com uma Valois da Borgonha saiu um rapaz que espalhou a sua semente fértil no belo útero de uma descendente dos reis Católicos de Castela e Aragão. O nome do rebento nascido de tão ínclita ascendência foi Carlos, e ficou para a história como Carlos V. Poucas pessoas ficaram para a história só por terem nascido, o Carlos foi um deles. Ainda bebé, quando passava o tempo a mamar e a borrar-se todo, já muitas casas reais europeias se borravam, não por solidariedade e nem sempre em sentido figurativo. O Carlos herdou do avô paterno Habsburgo a Áustria e os países baixos, da avó paterna a Borgonha e o Franco Condado, da mãe, Castela, Aragão, Navarra, Granada, Nápoles, ilhas Baleares mais todo o império espanhol da América central e do sul. Foi uma festa !

De um só nascimento a França viu-se cercada por todos os lados por territórios governados pelo mais poderoso rei Europeu desde Carlos Magno, ainda por cima afogado em ouro e prata vindos da América para lhefinanciar as guerras (e ainda há quem estranhe a França ter sido dos primeiros países a defender o aborto). Para compor ainda mais a brincadeira, como herdeiro Habsburgo, Carlos tornou-se no Sacro Imperador Romano Germânico, tendo o papa no bolso. 

As implicações disto serão terríveis para a França. Até esta altura vivia-se uma era de diplomacia universalista religiosa, ou seja, existiam poderes terrenos que agiam por inspiração de um poder divino. O papa era o maior intérprete da vontade divina e, estando nas mãos do Sacro Imperador era fácil adivinhar de quem deus mais gostava. 

Temos então em meados do século XVI uma França cercada e condicionada, e a sua reacção mudará a história da diplomacia para sempre. Voltarei a isso.

publicado por Nicolae Santos às 19:00

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