Maio 15 2017

Assim de repente há duas formas de acabar de uma vez com isto, uma simples e outra complexa. A forma simples é fazermos algo que a nossa espécie nunca fez, irmos cada um à nossa vida, deixarmos de viver em sociedade e voltarmos para a natureza selvagem, isolados de todos os outros e com relações episódicas de competição por território, comida ou sexo. A forma mais complexa é anular o móbil que torna a política necessária. Sem necessidade de gestão do conflito, não é necessária política para nada. Na realidade nenhuma delas é simples, nem sequer exequível. A política existe porque há conflitos e é necessário geri-los, tal como a economia existe porque há escassez. Sem escassez não existiria necessidade de gerir recursos limitados para necessidades/ambições ilimitadas, tal como sem conflito e sem formas diferentes de entender a sociedade e a sua organização a política não faria falta.

Thomas Moore no seu livro “A Utopia” descreveu esta sociedade sem política nem economia. Sem escassez, sem conflito e sem existência real. Muitos acusam a civilização ocidental pela Política, mas erram. Há tanta política nos Estados Unidos pós revolucionários, onde uma clivagem profunda entre criar estados independentes ou uma República federal foi quase tão irreparável como a clivagem entre esclavagistas e abolicionistas 80 anos depois, como a há na relação entre Shoguns e camponeses no Japão pré revolução industrial ou nas tribos animistas africanas que vendiam prisioneiros de guerra aos europeus esclavagistas. Os diferentes mecanismos e hierarquias reflectem apenas a diferente complexidade das sociedades. A tão afamada democracia ateniense punha 90% das pessoas fora do sistema e, apesar dos ricos e pobres se sentarem nos mesmo anfiteatros para ver as farsas e comédias, nos anfiteatros para decidir a governação a plateia estava muito mais reduzida.

A política existe porque somos animais sociais e culturais, muito mais que apenas animais. A nossa evolução biológica dotou o nosso encéfalo de um parietal fenomenal que nos atribuiu a capacidade de reflectir sobre os impulsos do nosso bolbo raquidiano. Podemos ter vontade de matar aquele tipo que nos roubou o lugar de estacionamento, mas não o fazemos, não na esmagadora maioria das vezes. E não  fazemos só porque é contra a Lei, fazê-mo-lo a maior parte das vezes porque sabemos interiormente que é errado e que é preferível andar um bocado a pé do que assassinar pessoas. A política existe porque, existindo milhões de pessoas com a capacidade para pensar, analisar e fornecer respostas para o funcionamento da nossa sociedade, naturalmente serão apresentadas soluções diferentes para os problemas da mesma. A política é necessária porque o conflito saído destas formas diferentes de ver o mundo pode e deve ser resolvido com diálogo e procura de soluções que, não satisfazendo todos não ofenderão ninguém. A política é a procura deste consenso, que nos permita viver em conjunto sem termos que contar vítimas e é para o conseguir que foram criados os “checks and balances” das nossas sociedades actuais, para que nenhum poder esteja de tal forma fora de controle que tenha a capacidade de reduzir os outros à submissão.

Quando, em política, o foco passa de um confronto entre ideias e visões diferentes para a sociedade para uma fulanização e discussão sobre quem manda, independentemente das ideias e visões, então já não é política, é apenas luta pelo poder. Quando está em causa o apoio ou combate a um indivíduo sem que sejam debatidas as suas soluções nem apresentadas as nossas propostas, a política perdeu o seu móbil no que tem de mais nobre, quando a gestão do bem comum é substituída por exercícios públicos de vaidade e ambição pessoal, tornamo-nos numa caricatura de nós mesmos, pior, fazemos uma viagem em direcção à lama e arrastamos connosco todos os outros que fazem política, porque não há nada tão popular como generalizar ao grupo os erros de alguns.

Enganei-vos no início. Dei a entender que tinha soluções para acabar com a política e não só não tenho como nem sequer quero. Tenho é uma solução para ajudar a identificar os políticos dos ambiciosos que lutam por poder. Vejam e escrutinem com atenção o que os move e como se comportam. Se tiverem a vontade e a capacidade para o fazer, certamente escolherão uns em favor de outros. E o ar será bem mais respirável. Para todos !

publicado por Nicolae Santos às 14:14

Maio 15 2017

Fui desafiado ontem por um amigo para lhe explicar a famosa trilogia dos Fs, Fado, Fátima e Futebol. Não sendo propriamente um especialista na matéria, vou aventurar-me no assunto. É dito e assumido pela maioria que essa trilogia foi a estratégia salazarista para controlar Portugal durante 48 anos. Nada mais errado. Nada mesmo mais errado do que isso. Salazar não usou o Fado, nem sequer Fátima, muito menos o Futebol para dominar o país, Salazar dominou o país apesar deles, e usou-os para sustentar o seu regime. Pode parecer retórica, pode parecer argumentativo mas é completamente diferente.

Hoje em dia os movimentos que mais ameaçam as democracias são movimentos populistas, se recuarmos à década de 20 do século passado grande parte dos movimentos fascistas que deitaram abaixo as democracias pós primeira guerra mundial foram populistas na sua raiz (Mussolini e Hitler), mas nem todos o foram. Em Portugal isso não aconteceu. Salazar nunca foi populista e tinha um pavor mal contido de manifestações populares. Salazar sai da Universidade para o Ministério das Finanças, do Ministério das Finanças para a chefia do Governo, daí para o poder que nunca foi absoluto. Salazar estava intimamente sustentado por duas organizações altamente hierarquizadas e estruturadas, o Exército e a Igreja. Como já vos expliquei há uns meses atrás, uma das características emblemáticas do populismo é a substituição das instituições por uma relação directa com o povo e a utilização dessa relação directa e emocional como sustentação para o poder. Desculpem a escandalização que posso causar mas Marcelo é mais populista num mês de Presidência que Salazar foi em 40 anos de Chefia do Conselho de Ministros.

O Fado é anterior à ditadura, logo não pode ser fruto dela. Já havia Fado antes da primeira República ter caído fruto da sua instabilidade, incoerência e guerra anti-religiosa. O Fado nasceu e cresceu nas ruas e tascas de Lisboa e Coimbra, o Fado vadio das desgarradas nunca se submeteu a regras ou ditames governamentais. O Fado coimbrão dos estudantes sempre foi uma vertente da luta anti-ditadura. A raiz popular do Fado nunca poderia ter sido um produto de uma ditadura centralizada onde a censura era um dos alicerces. Antes, a popularidade do Fado fez dele um cartaz de promoção do estado e do seu governo.

Com Fátima o exemplo é ainda mais emblemático. Fátima é o populismo do catolicismo. É uma manifestação popular de gente pobre, rural e semi analfabeta da Cova da Iria, extemporânea e não controlada pela hierarquia da Igreja. A história da relação entre a hierarquia católica e o fenómeno de Fátima é uma história de desconfiança e, inicialmente, acredito que mesmo algum medo. A Igreja é uma das instituições mais centralizadas e dogmáticas da história da civilização ocidental e a manifestação popular em que Fátima se tornou, até ter sido devidamente integrada e institucionalizada foi uma ameaça. Salazar então abominava-a. Se não estou em erro só lá pôs os pés uma vez, um ou dois anos antes de morrer e consta que foi mais arrastado que pelo próprio pé. Mais uma vez, uma manifestação de caracter popular passou de temida a integrada e institucionalizada. Mais uma vez uma manifestação popular, anterior à ditadura, passou a ser cartaz de um povo.

Com o futebol passou-se o mesmo. Nasceu antes da ditadura, cresceu como fenómeno popular que arrastou centenas de milhar de pessoas, a ditadura tentou controlá-lo e, não conseguindo, passou a usá-lo como publicidade. Tivemos durante a ditadura várias intervenções directas do estado nos clubes. A ligação do Belenenses à União Nacional era óbvia, pelo menos um Presidente do Benfica teve que sair por ameaça do governo, na primeira Taça dos Campeões Europeus o governo indicou um clube que não o campeão em título, graças à intervenção do governo a Liga foi aumentada duas vezes para que outro clube não descesse de divisão, Eusébio não foi vendido para o estrangeiro por ser considerado património de estado, etc. Durante a ditadura houve um clube que sempre elegeu democraticamente os seus presidentes, o que era uma afronta difícil de engolir. Depois do início da guerra colonial uma equipa com muitos jogadores originários de ex colónias conquista a Europa e é usada como cartaz do integralismo lusitano e da pátria portuguesa do Minho até Timor. Mais uma vez, o tal fenómeno popular sem controle é usado como panfleto por um governo isolado internacionalmente envolvido numa guerra sem solução que não a derrota desonrosa.

Fado, Fátima e Futebol não foram a estratégia salazarista para dominar Portugal, foram a caricatura com que Salazar viu os portugueses. Como lorpas incapazes que com religião, música e festa se calariam e deixariam as chatices de governar para os doutos saídos das Universidades e Seminários. A prova que estes fenómenos são transversais à sociedade portuguesa é que nasceram antes do fascismo, sobreviveram ao fascismo e foi em democracia que atingiram o seu mais elevado expoente. O fascismo caiu e o Fado sobreviveu, apesar de períodos conturbados no PREC. O fascismo já não existe e Fátima está tão enraizada que não há Papa que não a visite. O fascismo já não existe e o Futebol português nunca conquistou tanto como ultimamente.

O problema de muitos que fazem a apologia dos três Fs como resquício do Fascismo é que odeiam o povo. Odeiam-no ou desprezam-no e não conseguem aceitar os fenómenos populares que nasceram cresceram e triunfaram fora à margem de Leis ou vontades governamentais. Esse é o grande problema, há quem não respeite os costumes dos outros e, não os podendo proibir, tentam ridicularizá-los. Queixam-se de vivermos de acordo com o que Salazar definiu, no fundo têm uma relação muito complicada com a democracia, porque em última análise como pode alguém ser democrata se não consegue respeitar as tradições da maioria do seu povo ?

 

publicado por Nicolae Santos às 10:54

Maio 15 2017

A minha alegoria preferida sobre o poder está inevitavelmente na Guerra dos Tronos. Nessa alegoria, um rei, um nobre e um sacerdote encontram um mercenário e cada um deles oferece em segredo todas as recompensas desejadas, na condição de matar os outros 2 e entregar-lhe o poder absoluto. No final é perguntado a quem é que achamos que o mercenário vai vender os seus serviços e as respostas são tão diferentes como as pessoas questionadas, pois não há mais dados para fundamentar a resposta. A resposta certa é não existir resposta certa, tudo dependerá da percepção que o mercenário tiver de quem tem o poder. Parece complicado mas é simples, o poder está do lado de quem é reconhecido tê-lo. Se olhamos para um passado que nem precisa ser muito longo vemos variadíssimos exemplos disto. As pessoas reconhecem que algo ou alguém detém poder, seguem-no e esse algo ou alguém torna-se de facto mais poderoso.

Esta conversa toda aparece aqui por causa do futebol, como os mais perspicazes já devem ter concluído. Voltarei à alegoria na parte final, para agradecer aos rivais do meu clube. O Benfica está de ano para ano a solidificar um domínio no desporto em geral, e no futebol em particular, que já tem sido várias vezes referido e até mesmo estudado por clubes estrangeiros. LFV, nunca tendo sido uma pessoa que cativasse a minha simpatia, rodeou-se de uma equipa bastante profissional e coesa e tem levado o clube na direcção certa, quanto a mim. O passivo gigante mantém-se gigante mas perfeitamente consolidado, ou seja, o que tem que ser pago é-o religiosamente, o que, ainda que não seja para mim a solução perfeita (preferia estar a abatê-lo) funciona. Relativamente a isto não posso deixar de referir como anedota uma discussão com 4 amigos (2 camaradas e os outros 2 geringonços) em que todos me criticavam por defender que o Governo devia estar a abater dívida pública mais rápido. Todos discordaram de mim, e todos mudaram de assunto quando lhes recordei que defendia para o passivo do Benfica o mesmo que eles, nenhum deles Benfiquista. Mais uma vez, a percepção que temos dos assuntos vale mais que o que pensamos deles de forma coerente.

Voltando atrás, este domínio do Benfica, que atravessa várias modalidades e desagua na principal delas, o futebol, já resistiu a campeonatos perdidos ao sprint, à saída do treinador que deu os primeiros passos no retorno competitivo, perdeu jogadores nucleares todos os anos e até recebeu um treinador de acordo com muitos sem estatuto, e continuou a ganhar. De todos estes campeonatos considero que o segundo de Jorge Jesus foi o único fácil, ainda assim, os adversários têm facilitado a vida mais do que esperava. O FC Porto está perdido no labirinto da sucessão do seu quase mumificado presidente, além disso, é vítima do seu sucesso. O alicerce do seu crescimento foi um complexo de inferioridade que nem sequer é regional, é de área metropolitana. Em torno disso e do discurso anti-centralismo de Lisboa, o FC Porto fortificou-se, exacerbou-se, conquistou o país, a Europa e o Mundo. No fim olhou para o umbigo e perdeu o seu cimento original, um clube do mundo não pode falar como se vivesse cercado na sua cidade, qual aldeia de Asterix. O Porto perdeu alma, perdeu rumo e a sua estrutura dirigente passou a viver de um currículo fantástico e salários principescos. Terá que recomeçar do zero e reinventar-se, 1982 não voltará.

Quanto ao Sporting as coisas têm sido ainda melhores para nós. BdC é uma espécie de Síndrome de Tourette ao vivo, ele simplesmente não se controla. Desde que tomou posse atacou tudo e todos. Enquanto foram os outros, era visto como uma fonte de animação constante. Quando passou a ser o Benfica, tornou-se factor de união e de cerrar de fileiras. Ninguém tenha a mínima dúvida que ele é o grande responsável pelo título do ano passado. Cada um dos três clubes têm vertentes sociológicas diferentes, independentemente do facto de todos querermos ganhar e impedir que os outros ganhem. O Porto sempre teve o complexo de inferioridade regional transformado e sede de conquista, O Sporting aquela classe e cavalheirismo da nobreza atraiçoada pela República, o Benfica aquela arrogância irritante (muitas vezes até para mim) de quem se fez enorme e por isso e pela implantação popular tem o direito inalienável a vencer sempre. Das três assinaturas sociológicas, a mais fácil de anular é a do Benfiquismo. Isto pode parecer anedota ou provocação, mas não é. Somos muito vulneráveis à bajulação porque tudo o que queremos é que nos reconheçam a grandeza. Um Benfica vitorioso é a anulação do seu principal móbil, as vitórias não nos incentivam, engordam-nos e encostam-nos à sombra do triunfo. Essa é a exacta razão pela qual um clima de ódio e guerrilha nos fortalece. A lição deveria ter sido aprendida no verão de 1993, mas não foi. Cada ataque, cada insulto, cada invectiva é um estímulo para unir, e na união somos de facto muito bons.

O Benfica tem vencido com mais erros a favorece-lo que a prejudicá-lo ? Sim. Não tenho dúvidas. Já expliquei em cima como funciona, o poder está onde as pessoas pensam que ele reside. Tenho muitas dúvidas que existam no primeiro escalão árbitros genuinamente corruptos, não tenho dificuldade nenhuma em acreditar que em momentos de dúvida, escolhem em favor de que lado preferem correr o risco de errar. Já li muitas palhaçadas mas ainda nenhuma me explicou como é que o tal polvo Benfiquista se instalou numa Liga onde o Presidente foi eleito com apoio de Porto e Sporting, e contra o Benfica. Ou numa federação portuguesa de futebol onde o seu Presidente é um ex Presidente do FC Porto. Os árbitros têm errado mais a favor do Benfica, como erraram mais a favor do Porto durante muito tempo, como erraram mais a favor do Sporting durante 2 ou 3 anos (alguém se lembra do Sporting campeão com 17 ou 18 penaltis a favor marcados pelo Jardel ?). Fazer disto uma conspiração Benfiquista em vez de ver nisto o resultado do crescimento do Benfica em competitividade e resultados é um erro dramático que eu agradeço que continuem a repetir. Prefiro de longe os hashtags #colinho, #aculpaédoBenfica e #ligasalazar do que imaginar-vos a arrumar a casa, moderar o discurso e tomar boas opções.

Para terminar, uma aliança de vencidos na véspera do tetracampeonato é o melhor que nos poderiam fazer. Lá está, o poder vivem onde as pessoas pensam que ele está, e por mais desculpas ou argumentações que inventem, a cimeira FCP – SCP foi uma reacção às vitórias do Benfica e uma assumpção de menoridade que nós agradecemos. Ganhámos uns quantos meses de poder assumido, e desta vez reconhecido pelos principais adversários. É pouco para garantir o penta, mas já é alguma coisa.  

publicado por Nicolae Santos às 10:05

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