Julho 13 2012
A saudade é uma coisa complicada. Definir sentimentos nunca é fácil, mas a saudade acho que ultrapassa pela complexidade todos os outros. Há amor na saudade, se não houvesse ela não existiria. Há perda, sem dúvida, dependência o quanto baste, melancolia em doses industriais, tristeza, nem sempre bem controlada e até um certo ressentimento por não termos o que consideramos essencial para a nossa felicidade.
Sou de uma família que veio de Angola, daquelas pessoas que é comum serem apelidadas de retornados, apesar de isso ser um monumental disparate na maior parte dos casos, pelo menos no da minha família que já lá andava há quatro ou cinco gerações. Com este background como devem calcular aprendi o que era a saudade muito antes de aprender o que era amor, ou ódio ou todos os outros sentimentos ao dispor no catálogo do nosso coração. Desde muito novo que assisti a conversas sobre a nossa terra, e apesar de considerar a minha terra Olhão, a realidade é que um bocado de mim pertence a Porto Alexandre.
Entre 1974 e 1976 cerca de 800.000 ou 900.000 pessoas abandonaram as ex colónias e vieram para a ex metrópole e, passados quase 40 anos a sua história ainda não foi verdadeiramente escrita. Considero a sua integração em Portugal como o último grande milagre da história deste país. Em dois anos a população de Portugal aumentou 15% e se acham isso pouca coisa é porque não viveram e não estudaram o que foram esses dois anos. Os chamados retornados trouxeram a este país uma lufada de ar fresco como Portugal poucas vezes tivera. O país estava claramente dividido entre uma capital com alguns germes de cosmopolitismo mas fora de Lisboa a sociedade estava espremida e condicionada por uma ditadura medieval que se sentia feliz com a ideia de Portugal nunca evoluir para além de 1900. Ao contrário, nas ex colónias o aperto ditatorial não se fazia sentir de forma tão pronunciada. As pessoas que vieram de África cresceram e viveram numa sociedade mais livre, mais solta, menos condicionada. Trouxeram uma mentalidade mais aberta e muito, muito menos temerosa dos poderes invisíveis que em Portugal faziam pais temerem filhos pois ninguém sabia quem eram os informadores da famigerada PIDE. Além deste facto, em África ocupavam as profissões liberais necessárias à gestão do dia a dia e ao chegar a Portugal foram exactamente essas as posições que ocuparam numa sociedade em renovação acelerada.
Assumiram-se como uma força renovadora, com um ímpeto que os levou depressa a ocupar posições chave. Em poucos anos a mentalidade avançou gerações, não sem que este processo tivesse falhas e deixasse cicatrizes. Muitos foram acusados de ocupar um país que não deveria ser deles, muitos sentiram-se como apátridas presos num vortex entre o país que deixara de ser deles e o país que os olhava com desconfiança. Mas no fundo nada disto me interessa verdadeiramente.
O que para mim é mesmo importante é ter assistido à sua mudança. Muitos vieram com mágoa, muitos outros com tristeza, alguns com raiva, todos com saudade. Perderam muito, em alguns casos, tudo. Uns recomeçaram de novo, outros perderam-se em ódios e recriminações nunca tendo percebido verdadeiramente que foi a História que os atropelou e os tornou num anacronismo, apesar de nada terem feito que o merecessem. Mas o tempo é um Senhor e o tempo cura muita coisa. Curou a maioria dos que conheci na minha vida. O ódio esbateu-se, o ressentimento amainou e o passar dos anos fez deles instrumentos da história em vez de vítimas dela. Eles não podiam esperar nem prever o cataclismo que os acometeu, não pediram nem desejaram deixar uma vida para trás em busca de outra nova vida. No entanto, foi sua escolha deixar para trás, nunca esquecendo, e seguir em frente. Hoje quando me sento a conversar com eles já não consigo encontrar todos os sentimentos negativos que me recordo de ouvir enquanto criança nas conversas entre o meu avô e os seus amigos. Hoje há apenas saudade. Saudade, ternura e uma paixão intensa que se transforma num amor imenso pela terra onde nasceram, cresceram, amaram e perderam. Falar com eles hoje é uma viagem no tempo, a um tempo que os ultrapassou mas que não esqueceram e fazem questão de recordar.
Como escrevi no início, eles próprios são a definição de saudade. A sua história ainda não foi verdadeiramente escrita mas será. Cada um e todos eles são história, são ternura, são saudade. Não há para eles uma estátua, um feriado ou um nome de rua, são para quase todos Portugueses como os outros, para mim cada um deles é um fado, uma estátua, uma homenagem a um tempo que já só sobrevive nos recônditos cantos das suas memórias.
Eles eram o sal da sua terra, e deram tempero a esta, que aceitaram como sua sabendo no seu âmago que nunca a será verdadeiramente.
Espero que falem, falem muito sobre o que viveram, espero que o escrevam para que o tempo que os atropelou não leve para o esquecimento as suas histórias, as suas vidas.
Bem hajam.
publicado por Nicolae Santos às 01:17

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