Dezembro 01 2012
11h30 - Toca o telefone. Acordo com a voz da Gabriela. Quinze minutos depois foi-se o conforto do quarto e chegou o frio sádico desta terra pela cara adentro para me lembrar que a minha arrogância de Algarvio habituado a temperaturas decentes corre mal nesta terra. Café rápido e vinte minutos de conversa dada a ausência de contacto deste uma noite idílica em Ponte de Lima há três meses atrás. Deu para matar saudades mas soube a pouco, como sabe sempre a pouco. Hope we'll see each other in better days.
12h00 - Sentado no parque da ponte a tentar ler o jornal. No banco à minha frente um casal de namorados. Ela extraordinariamente bonita, sorriso tímido, olhar inseguro, voz delicada espalhada ao vento à velocidade da vibração das suas cordas vocais que a genética teceu com carinho em vez de as ter martelado numa bigorna. Ele, cabelo desalinhado, magro demais para ser aceite em cima de uma balança e com um olhar desinteressado como se estivesse a cumprir pena por algum crime passado. Ele ama-a mas não sabe, ela está a ficar farta dele e ainda não o descobriu. O alheamento que ele demonstra enquanto ela fala e lhe acaricia o cabelo poderia até ser a sua imagem de marca, o pior é que a sua postura de macho alfa é completamente traída pela forma como lhe sorri quando ela está distraída. Nenhum homem sorri para uma mulher quando ela não está a ver sem a amar. Quanto à rapariga, bem, ela fala, e fala, e continua a falar. Parece que está a tentar esgotar todos os assuntos do catálogo e todas as palavras alguma vez proferidas na esperança frustrada de obter mais que um monossílabo. Os suspiros entre as diferentes tentativas de captar a sua atenção já denotam cansaço, mas ela continua. Até um dia. Continuarão os dois a dançar este tango descalços sobre os espinhos das rosas que juraram oferecer um ao outro, até um dia descobrirem que, ao contrário do Amor, o sofrimento tem limites.
A minha atenção muda para um casal de sexagenários que se aproxima de mãos dadas com um petiz que não deve ter mais de 6 anos de mão dada ao avô. Sentam-se no banco ao meu lado direito. Sá esquerda para a direita, neto, avô e avó. O puto desata a correr, os avós continuam de mãos dadas. Depois de uns minutos de correria volta ao ninho e desembrulha com uma avidez de criança um kinder que a avó tira de uma daquelas malas onde as mulheres guardam tudo o que não lhes cabe no coração. Com o chocolate despido ao vento o puto lá o vai comendo deliciando-se com a doçura. É novo demais para saber que tem ao seu lado direito, e não na sua mão direita, a maior doçura que alguma vez conhecerá na vida. Os três juntos são nesta manhã as três pessoas mais felizes do planeta, tenho a certeza disto.
12h20 - Lá vou eu a pé monte acima para Nogueira e para casa dos Gonçalves. Repito com gosto uma das minhas peregrinações preferidas de sempre, já feita mais vezes do que as que sei contar. Nunca conheci na vida nada mais precioso do que pessoas cujos olhos brilham quando nos vêem. A casa dos Gonçalves sempre foi dos meus santuários preferidos, umas vezes fui lá em busca de apoio, outras em busca de companhia, por vezes para matar saudades, sempre com um prazer enorme.
13h30 - Minho Center. Está a chegar o Miguel e há no meu futuro próximo à minha espera um almoço em Escudeiros com ele, a Sandra e as suas maravilhosas filhas, a Carolina e a Margarida. Como de costume a Margarida, do alto dos seus 5 anos recebe-me com um emblemático "olha o Nicolae", depois do qual faz de mim colchão e saco de pancada, com uma inesgotável energia e um sorriso onde toda a ternura do hemisfério norte se encontra concentrada. Fazemos uma farra do tamanho de uma galáxia de médias dimensões e, perto de nós, com os seus dez aninhos a Carolina parece claramente a mais adulta criatura viva.
16h00 - Minho Center outra vez. Chega a Cândida. Lanche na casa da madrinha com a sua mamã. Entre dores e angustias pelo estado do país, relatos de cerca de ano e meio de ausência de conversa e preocupações maternais reforço uma das certezas da minha vida, se a força de um homem se pode medir pela paixão e dedicação que coloca no que faz, a sua segurança só pode ser avaliada pelos alicerces que o sustentam. E este é dos que tem a resistência do titânio e a beleza do diamante. Não é por aqui que um dia cairei.
19h00 - Delicatum, once again. Actualmente o meu ninho em Braga. Depois de um dia a andar de um lado para o outro finalmente sossego. Vai começar o jogo do Barcelona. A seguir a um vortex de emoções, agora uma banalidade para repousar a alma. Já estava a precisar.
publicado por Nicolae Santos às 20:00

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