Fevereiro 09 2018

Acho que já não é segredo para ninguém que gosto bastante de História militar, e de História americana. Estes dois temas interceptam-se num, a guerra civil americana. Apesar de contestar o termo, para mim não foi uma guerra civil, a verdade é que a considero um assunto complexo e apaixonante, o momento mais marcante na História dos Estados Undos, sem o qual é impossível compreender os últimos 150 anos daquele país. Desde alinhamento político dos principais partidos, sociologia eleitoral, direitos civis, isolacionismo que alterna com belicosidade baseada em razões morais, etc.

Adiante, uma das particularidades mais interessantes desta guerra está no facto de a sua História andar a ser escrita e reescrita desde o seu final, e por muito estranho que vos possa parecer, pelo menos na cultura popular, foi o Sul que venceu o Norte. Em Appomattox, dia 9 de Abril de 1865, Robert E Lee assinou a rendição do seu exército do norte da Virgínia, cinco dias antes do 4º aniversário do início da guerra. A Confederação de Estados que se tinha separado dos Estados Unidos foi inapelavelmente derrotada, ocupada pelos exércitos federais, desmembrada e a sua “instituição particular”, vulgo, “escravatura” foi dissolvida. Quase 300.000 mil mortos, um terço de todos os homens brancos que serviram nos seus exércitos, vias de comunicação destruídas, marinha afundada, estrutura social em disrupção e 15 anos de ocupação militar à sua frente, foi este o resultado dos quatro anos de guerra. Praticamente na mesma semana, ainda se ouvi o barulho das armas a ser depostas aos pés de Ulisses S Grant, começou um movimento que veio a ser conhecido como “A causa perdida”, e que veio a mudar completamente a forma como as razões para o início da guerra são entendidas. De acordo com este movimento iniciado por generais e políticos confederados, a confederação nunca teve hipóteses e estava condenada à partida, tendo lutado da forma como lutou por uma questão de honra. Segundo eles, a superioridade de homens e meios do governo federal era assombrosa, e se eles tivessem resistido mais tempo, o governo da União teria apenas mobilizado mais gente e o resultado seria o mesmo. Mais importante, a secessão aconteceu, não por causa da escravatura, mas por causa de uma visão dos Estados Unidos mais descentralizada, onde os poderes de cada estado seriam maiores do que os poderes do governo federal.

É tudo muito bonito e muito bem fundamentado, é tão bom que, sendo mentira, tem uma elevada percentagem de verdade. Sim, o norte tinha muito mais meios e homens que o sul, e sim, o sul era a favor de uma federação de estados e o norte a favor de um estado federal, parece jogo de palavras mas há diferenças. Dito isto, o sul não só podia ter ganho a guerra, como esteve três vezes a milímetros de o conseguir, já para não dizer que é completamente disparatada a ideia que uma nação trava uma guerra que culmina na sua completa destruição só por uma questão de honra. A escravatura foi central em todo o processo que conduziu à guerra. São dados vários/muitos exemplos de confederados que eram contra a escravatura, mas não era bem assim. Mesmo para aqueles a quem a situação repugnava e que não espancavam escravos e violavam escravas como n’”A cabana do pai Tomás”, uma coisa era não tratar seres humanos como propriedade, outra muito diferente era dissolver um sistema que mantinha sob controle um barril de pólvora de potencial violência étnica à porta das suas casas (O sul tinha 9 milhões de habitantes, 4 milhões deles escravos). O sul lutou para manter o seu estilo de vida, lutou até ao limite das suas forças, e até à queda de Atlanta acreditou que podia ganhar.

A causa perdida no entanto abriu o seu caminho e impôs-se. Se pensarem um pouco nas coisas que já leram e viram sobre o tema, em quantas a mensagem que passa não é a da honra sulista a lutar pelas suas casas contra probabilidades impossíveis ? “E tudo o vento levou”, “Norte e Sul”, “Gettysburg”, “Gods and Generals”, etc, etc. Por muito estranho que possa parecer, a quantidade de estátuas de homenagem a generais confederados é cerca de 4 vezes superior à de generais unionistas, Robert E Lee, o general que liderou um exército que tentou dissolver a União, tem 5 selos em sua homenagem nos Estados Unidos, Ulisses S Grant, o general que o venceu e foi Presidente tem 2. Até há bem pouco tempo, bandeiras confederadas eram hasteadas diariamente em edifícios governamentais por quase todos os Estados que fizeram parte da Confederação.

Pode parecer-vos estranho, mas a realidade é que na chamada “Guerra civil americana”, pelo menos no que à cultura diz respeito, foram os derrotados quem venceu.

publicado por Nicolae Santos às 10:11

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