Outubro 09 2018

Já todos vimos e nos apercebemos do que se anda a passar pelo mundo fora. No início pareceu uma excentricidade local, depois passou a ser uma espécie de tio afastado que faz barulho à mesa a comer a sopa, toda a gente se incomoda mas ninguém fala nisso, agora é um elefante na sala, toda a gente vê, toda a gente se incomoda e já ninguém sabe como o tirar de lá.

Os movimentos populistas e extremistas chegaram, assentaram arraiais e impuseram-se e os nossos regimes democráticos liberais estão em risco. França, Itália, Hungria, Polónia, Reino Unido, Estados Unidos, Brasil estão aí a entrar-nos pelos olhos a dentro, não esquecendo o Podemos espanhol e o Syriza grego, que felizmente se socialdemocratizou no poder.

Existe um cada vez maior apoio eleitoral a movimentos que há 20 anos seriam apenas anedóticos e agora disputam e vencem eleições, mesmo em sociedades que sofreram ditaduras há não tanto tempo assim atrás. É importante encontrar e compreender as razões e mais importante ainda é reflectir sobre elas, de preferência de forma rigorosa e científica, e não recorrendo aos cânones ideológicos que nos orientam. Um dos grandes problemas em política é exactamente esse, a quase incapacidade de muita gente para analisar factos como eles o são. A maior parte das vezes é mais fácil fazer a leitura que interessa para passar a mensagem que queremos.

Não tendo soluções para combater esta maré, sim já não é só uma onda, quero deixar o meu contributo para o tentar explicar. No meu ponto de vista, o que estamos a assistir é a uma profunda e sonora revolta dos contribuintes.

Na Europa existiu uma frente moderada entre socialistas, liberais e democratas-cristãos que reconstruiu o continente depois da segunda guerra mundial, lançou as bases da união europeia e levantou o welfare state. Isto foi feito aos ombros da maior geração de sempre, os baby boomers, que entraram no mercado de trabalho com uma formação académica que os pais nunca tiveram, foram os percursores da nossa classe média. Num tempo em que existiam 10, 12 ou 15 trabalhadores por reformado as suas contribuições pagaram reformas, sistemas públicos de saúde e educação, construíram infra-estruturas. Tudo isto num clima de paz, apesar da guerra fria, e mesmo essa paz era sob protecção americana o que nos permitiu nunca ter que gastar em defesa o que eles gastavam. O mundo mudou, a bipolaridade ruiu, os baby boomers reformaram-se e agora temos no mercado de trabalho a mais pequena geração de sempre a ter que pagar as reformas dos muitos pensionistas fruto de uma cada vez maior esperança de vida. Os estados que construímos pesam 50 ou mais % do PIB e nesse cenário não só é impossível diminuir impostos como muitas vezes necessário aumentá-los até níveis de autêntico esbulho fiscal.

Os contribuintes estão a revoltar-se um pouco por todo o lado. A chamada classe média, que numa definição simplista é o conjunto de pessoas que não vive de rendimentos nem precisa de prestações sociais, está esmagada por dívidas e apertada com impostos. É a dívida da casa ou do carro, são os impostos directos sobre o rendimento ou os indirectos que levam tanto ou mais do orçamento familiar. Hoje em dia uma pessoa com rendimentos de 800 a 1000 euros por mês quase certamente tem uma vida pior que uma que ganhe o salário mínimo. Estas pessoas, na sua esmagadora maioria compreendem a necessidade de contribuir para o orçamento de estado. Elas compreendem que os seus impostos são necessários para as escolas, estradas, pensões e hospitais. Elas deixaram foi de compreender e/ou aceitar ver o seu dinheiro ser gasto de forma menos que absolutamente criteriosa. Quando os sistemas públicos pelos quais tanto pagam não funcionam, quando não têm transportes funcionais e impostos mortíferos sobre automóveis e combustíveis, quando as prestações sociais são atribuídas sem critério nem rigor, quando bancos que os esmagam com juros e taxas sorvem quantidades pornográficas de dinheiro público o descontentamento cresce e a revolta aparece.

Dei vários exemplos de vários países que se renderam a populistas e extremistas. Em todos os casos o seu sucesso eleitoral foi construído aos ombros desta classe média. Os eleitores da FN francesa foram mineiros do nordeste e funcionários públicos do PSF ou do PCF. A Liga em Itália foi criada com o apoio dos operários do norte industrial. Os blue collars do Midwest americano que votaram Democrata desde Bill Clinton elegeram Trump. No Brasil as cinturas metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais Bolsonarizaram-se sem grandes problemas de consciência. Consoante os casos existem razões, mas no meu ponto de vista há uma em comum, esta revolta dos contribuintes. No Brasil contra a corrupção que o PT não soube combater e/ou até promoveu. Na Europa contra os imigrantes e refugiados que são vistos como sorvedouro de recursos do estado, no Reino Unido contra a União Europeia, vista como uma montanha de regulamentos e obrigações contra a eterna independência britânica.

Não estou a defender estes partidos e movimentos, conhecem-me bem demais para o fazer. Estou só a dizer que partir do princípio que existem 49 milhões de fascistas no Brasil é redutor e ofensivo, e do que percebo de política não se convencem eleitores insultando-os. Estes movimentos colocaram-se à margem do sistema, e a partir daí estão a conquistá-lo, porque os contribuintes estão zangados com o sistema. Se não começamos a ser absolutamente criteriosos com a forma como gerimos os dinheiros públicos, se fazemos algo menos que o máximo possível para erradicar a corrupção, o tráfico de influências e a apropriação dos aparelhos de estado (nacional, regional e local), se não passamos a explicar claramente às pessoas como, onde e porquê o dinheiro é gasto e/ou investido, os contribuintes, a classe média não fará as pazes connosco. E se não o fizer, continuaremos a assistir à queda das nossas democracias liberais às mãos de populistas e extremistas. Uma de cada vez. Até acabarmos em 1914, mas com armas muito melhores em sociedades muito mais polarizadas.

publicado por Nicolae Santos às 09:50

mais sobre mim
Outubro 2018
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
11
12
13

14
15
16
17
18
19
20

21
22
23
24
25
26
27

28
29
30
31


pesquisar
 
blogs SAPO