Julho 30 2018

Ricardo Robles fez um excelente negócio. Demonstrou visão e capacidade de risco, coisas que estão em falta em Portugal. Pediu empréstimo bancário, arriscou endividar-se, investiu, requalificou, valorizou e colocou à venda com lucro. Se o prédio tivesse sido vendido pelo valor pretendido, não só ele e a irmã teriam tido um enorme lucro (suficiente para pagar o empréstimo e até investir noutros negócios semelhantes), como um prédio anteriormente em mau estado estaria ao serviço da actividade actualmente mais lucrativa na nossa economia, o alojamento local, responsável por trazer turistas que gastam cá o seu dinheiro gerando riqueza e postos de trabalho.

Qual é afinal o problema disto ?

Para mim nenhum. Absolutamente nenhum. Nem sequer há qualquer problema como há mesmo motivos mais que suficientes para elogiar Ricardo Robles por ter investido, lucrado e melhorado a economia. As coisas ficariam por aqui, não fosse o caso de existir outro Ricardo Robles, além do investidor local. Há o político local, e, tal como a história de Dr Jekyll e Mr Hyde, um é a antítese do outro. Ao contrário de mim, e de toda a gente com juízo, o Ricardo Robles político abomina o que o Ricardo Robles investidor fez. O Ricardo Robles político tem orgulho nas ocupações do pós 25 de Abril, o Ricardo Robles político acha que onde há lucro não há humanidade, o Ricardo Robles político não gosta do alojamento local e acha que a especulação imobiliária é um cancro nas cidades. Chegando aqui, o senhor Ricardo Robles tem um problema, aliás ambos os Ricardos Robles têm. O investidor de sucesso tem à perna o político que acha imoral a sua existência, o político dito defensor dos pobres e oprimidos tem o investidor que incinerará qualquer palavra que volte a dizer sobre a habitação local, só pelo seu exemplo.

No meio disto o partido de ambos, aliás, do político, cometeu todos os erros que podia cometer. Colocado perante esta situação o BE tinha que escolher, manter o Ricardo Robles (político) ou manter o discurso. Escolhia o seu jovem e (ainda?) promissor político e deixava cair um dos seus alicerces ideológicos, a defesa intransigente da imoralidade do lucro que resulte de actividades privadas, ou então livrava-se do político acusando-o de uma parvoíce qualquer daquelas em que os lunáticos acreditam, género comportamento desviante, crime de classe, pequeno-burguesismo, e mantinha o seu discurso tonto e idiota. Bem, eu preferia que tivesse sido a primeira opção, mas não foi. Não foi nenhuma das duas. Catarina Martins conseguiu inventar uma terceira, manter o político e o discurso. Obviamente que não vai funcionar, sinceramente acho que ela sabe que não vai funcionar, mas agir de forma diferente obrigá-la-ia a ter coragem e a pedir desculpa, coisas que são raras em demagogos. Ao decidir apoiar Ricardo Robles (o político) e manter o discurso ela condenou o BE à completa irrelevância sempre que o tema habitação local for discutido. Não me parece que perca muitos votos, pelo menos tendo em conta os eleitores tipo do BE que eu conheço, vai é limitar a sua capacidade de crescimento e, talvez pior, a aura de pureza que o partido ainda tinha perante muitos, acabou.

Tenho lido algumas pessoas queixarem-se que este caso só tomou estas proporções por Ricardo Robles (o político) ser do BE. Estou completamente de acordo. Isso aconteceu porque é o BE que tem um discurso moral e não político. Porque é o BE que arrasta o discurso para a moralidade e não para o combate de diferentes opções políticas e orientações ideológicas. Porque foi o BE quem mais ataques de carácter fez na sua curta história.

Eu preferia que o BE mudasse o discurso para que ambos os Ricardos Robles pudessem viver em paz, com as opções políticas de um e a riqueza gerada pelo outro. Infelizmente parece não ter sido essa opção, logo, cabe-me apenas agradecer e desejar a melhor das sortes ao Ricardo Robles investidor, pelo que fez pela economia de Lisboa.

publicado por Nicolae Santos às 09:49

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