Maio 21 2018

Quem viu o “Clube dos poetas mortos” certamente recordar-se-á da definição de desporto feita pelo Professor Keating, segundo o qual, “desporto é a forma civilizada de um grupo de homens mostrar que é melhor que outro sem se matarem”.

Existe violência latente na nossa sociedade. Não é culpa do desporto, da religião nem da política, é uma característica nossa como espécie, que foge ao controle e deflagra por um ou vários dos motivos que exemplifiquei, ou por quaisquer outros. Para que tal aconteça, basta uma faísca. Pode ser uma crise económica/social, clima de insegurança, sentimento de ameaça externa, muitas vezes basta um líder capaz de mobilizar um grupo contra os restantes.

Durante grande parte da nossa história essa violência latente era extravasada através da guerra. Somos muito novos para nos recordarmos mas a Europa viveu em guerra constante desde a queda do império romano até final da segunda guerra mundial. O clima de paz quase constante que lhe seguiu, para o qual muito contribuiu o projecto de construção europeia pode ter eliminado a violência entre estados mas não acabou com a violência humana, ela mantém-se na nossa sociedade.

O desporto durante muito tempo integrou a controlou a violência fornecendo a sensação de pertença a um grupo e funcionando como escape, através de uma competição com outros grupos pelo mesmo objectivo. Funcionou durante muito tempo porque a competição desportiva foi uma competição intraespecífica, em que os adversários se reconheciam como iguais, ambos dignos de competir, ambos merecedores de respeito quer ganhassem quer perdessem, e lutar por uma taça era bem mais saudável do que ir à guerra por causa de uma cidade ou a foz de um rio. O desporto ultrapassou as fronteiras sociais iniciais e contribuiu para a democratização das sociedades, esbateu fronteiras e uniu povos separados pela guerra fria.

Entretanto, as sociedades evoluíram. As migrações internas e externas criaram guetos e bairros de lata, as sociedades outrora uniformes tornaram-se multiculturais, e, mais uma vez, o desporto integrou minorias étnicas e sociais, e fê-lo mais depressa que a política e a sociedade conseguiram. Não foram só vantagens, como está à vista. Quando o sentimento de pertença a um clube se torna mais forte que o sentimento de pertença à sociedade, ou ao respeito pela Lei, temos fenómenos como os iniciados na Inglaterra na década de 70, e que foram exportados à velocidade das transmissões televisivas.

Os clubes substituíram muitas das estruturas sociais clássicas, tornaram-se no que as pátrias eram em séculos passados e os dirigentes descobriram que tinham exércitos ao seu dispor, que, ultrapassando fronteiras étnicas, culturais, religiosas, políticas, etc, eram mais facilmente mobilizáveis porque não precisavam de plataformas comuns muito complicadas, bastava o símbolo e a cor da camisola. Cerca de um século de confronto intraespecífico foi trocado nas últimas décadas por um novo tipo de confronto, o interespecífico, em que já não se reconhecem os adversários como iguais, dignos de competir, e passámos a olhar para eles como inferiores, indignos, cujas vitórias são imorais. O desporto em vez de integrar a violência latente da sociedade passou a exponenciá-la, a canalizá-la para o ataque ao próximo. O discurso tribal de líderes passou a ter como objectivo, não a superação em relação ao adversário, mas a destruição do inimigo.

O que se passa hoje em dia no Sporting é uma perversão ainda maior disto, é o discurso contra o inimigo virado para dentro, é a tribalização dentro do próprio grupo. O que o amor ao clube serviu para juntar gente das mais variadas etnias e classes agora serve para separar as classes dentro do grupo, entre “populares” e “roquetistas” ou “viscondes”. Não vou tecer comentários sobre o rumo que o Sporting deve seguir, nem avaliar as presidências “roquetistas” comparando-as com a actual, isso cabe-vos a vocês, e como devem saber, a minha filiação clubística é outra. O que me preocupa é a facilidade com que um líder com capacidade para fidelizar uma boa parte de um grupo consegue manipular essa fidelidade para transformar a violência latente em violência de facto. Adoro futebol e gosto muito do meu clube. Respeito os outros, na exacta medida em que sou respeitado, mas a minha preocupação extravasa o futebol. A situação actual no Sporting é um caso de estudo. Digo-o sem qualquer ironia, e não pensem que existe qualquer regozijo pelo que está a acontecer. Se o que está a acontecer no Sporting servir de lição para a política, um dia poderemos ter um populista como Bruno de Carvalho a mobilizar parte da sociedade contra outra, e a História já nos ensinou que, quando homens desses chegam ao poder, o resultado da sua acção mede-se em sacos de plástico com cadáveres lá dentro.

Espero que sejam capazes de ultrapassar isto, e que a lição que fique seja a de como vencer aqueles que recorrem aos instintos mais primários para conquistar e exercer o poder.

Saudações desportivas

publicado por Nicolae Santos às 11:39

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